sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Dentro de ti ver o mar




Entrar em ti e dentro de ti ver o mar...

Os livros da Inês Pedrosa são sempre muito intensos. Este não é diferente. O amor, a paixão, a solidão navegam pela escrita de Inês como nos versos de um fado. As personagens femininas se sobressaem, mostrando-nos uma força que nem elas sabem que possuem.

Em Dentro de ti ver o mar, título lindíssimo por sinal, conhecemos três mulheres distintas que estão tentando encontrar sua identidade. Rosa, uma cantora de fado que, depois de perder quem considerara ser sua mãe por toda a vida, decide sair em busca de seu pai e de sua verdadeira história. Vivendo um amor intenso e arrebatador por Gabriel, um homem casado, que mantêm um casamento de aparências por conta dos filhos e uma relação de abuso emocional com a esposa, e que tem medo de viver plenamente seu verdadeiro amor por Rosa.

Luísa, uma mulher que não teve uma mãe na infância e que, quando engravida de um homem pobre na juventude, decide dar a criança para uma amiga, por que também não quer ser mãe, nem perder a chance de encontrar um marido melhor, que pudesse lhe oferecer uma vida melhor.
Escolhas que causarão grande sofrimento e solidão, mostrando que deixar de ser feliz agora pode ser um grande erro, pois pode não haver oportunidade melhor no futuro.

Farimah, uma jovem que busca sua própria identidade longe das amarras de sua cultura e da opressão que as mulheres sofrem em seu país, fica um pouco perdida quando de repente encontra diante de si a liberdade que nunca teve. É encontrando um grande amor que ela aprende que a liberdade com a qual tanto sonhou só vale se for mesmo conquistada.

É em torno dessas três mulheres que a história se desenvolve, abordando temas importantes como o abuso emocional a que algumas mulheres se submetem nos seus relacionamentos, mas também mostrando que são mulheres fortes e capazes de ter uma segunda chance.

Gostei do livro, principalmente porque nele a Inês volta a abordar um tema que desenvolve muito bem, que é o universo feminino. O texto continua tão poético e apaixonado como no Fazes-me falta.

O livro será lançado no Brasil pela Editora Alfaguara em São Paulo no dia 22 de setembro de 2013, mas o ebook já está disponível para compra.


Para ver o vídeo da Inês Pedrosa falando sobre o livro, clique aqui.

domingo, 25 de agosto de 2013

A Improvável Jornada de Harold Fry


Começar uma jornada sem saber onde chegaremos; tentar fazer alguma coisa nova sem saber se seremos capazes; arriscar, simplesmente porque o seu coração diz que você deve tentar. Sem se importar com o que os outros vão pensar de você. Se vão rir de você ou achar que você é maluco. Essa é a essência da emocionante jornada de Harold Fry.

Harold é um aposentado, vivendo uma vida tranquila e sem muita emoção ao lado da esposa Maureen. O casamento dos dois já não é como antes. Acostumaram-se tanto um com o outro que não sabem mais o que dizer. Ou ficou muita coisa por dizer. Até que um dia Harold recebe uma carta de uma colega de trabalho que não vê há muitos anos, com uma triste notícia: Queenie está com câncer e está morrendo.

Abalado com a notícia, Harold fica sem saber o que fazer. Gostava muito de Queenie, uma pessoa que sempre foi muito gentil com Harold no trabalho, uma verdadeira amiga. O que me fez pensar que o que realmente faz alguma diferença nesse mundo é a maneira como tratamos as pessoas e como as fazemos sentir quando estão conosco, mesmo que seja no ambiente de trabalho. Mesmo que seja por alguns instantes. Harold então decide escrever uma carta para Queenie, e vai caminhando até o posto de correio mais próximo. Mas Harold não consegue apenas colocar a carta no correio. Afinal, o que podemos dizer para alguém que está morrendo em uma carta? Seria uma carta o suficiente? E nesse pequeno trajeto até o correio, Harold encontra algumas pessoas com quem conversará, e que ajudarão a transformar esse pequeno trajeto até o correio em uma jornada para salvar Queenie, e que termina por salvar o próprio Harold de seus medos, de sua dor, dando-lhe uma nova esperança diante da vida. Harold decide caminhar de sua cidadezinha ao sul da Inglaterra até a cidadezinha ao norte do país onde Queenie está. Sem estar preparado para a caminhada, Harold decide seguir em frente, simplesmente porque acredita que Queenie o esperará.

Durante a caminhada, Harold encontra pessoas de todos os tipos e de todos os lugares; e cada um, do seu jeito, lhe ensinará alguma coisa. E com Harold aprendemos a aceitar as pessoas como são, porque no fundo quase todas elas tem algo de bom a oferecer. Basta acreditar.

Pode parecer um pouco tolo para as pessoas que desde sempre têm na ponta da língua todas as respostas, e as maiores certezas de como a vida deve ser ou do que devem fazer, mas A Improvável Jornada de Harold Fry, usando todas as incertezas possíveis, nos mostra que o que importa mesmo não é ter todas as respostas, e sim estar aberto a descobrir as perguntas que a vida nos oferece a todo o momento e o que elas nos ensinarão. A jornada de Harold nos mostra que o mais importante é ter fé, principalmente em nós mesmos.

Rachel Joyce. A Improvável Jornada de Harold Fry. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Mimo



Minha irmã chegou aqui trazendo esse texto para mim. Ser lembrada com coisas lindas assim é sempre uma alegria. E um mimo para o coração.

Os livros de nossas vidas

"O que você está lendo?" - Para todos os amantes dos livros essa pergunta é sempre garantia de uma boa conversa, ou pelo menos tem tudo para ser o início de uma boa conversa. Muito do prazer de ler vem de poder compartilhar o que sentimos, pensamos e aprendemos durante a leitura, pois é assim que damos um significado ao que lemos.

No livro The End of Your Life Book Club (Random House, 2012, 336 páginas) ou O clube do livro do fim da vida, a história não é diferente: Will Schwalbe cresceu em uma família onde o amor pelos livros se fez presente desde os primeiros anos. Seus pais, leitores vorazes, incentivaram nos filhos o amor pela leitura simplesmente porque eram grandes leitores, o que nos mostra a importância desse incentivo e exemplo por parte dos pais na formação de filhos leitores.

Quando Mary Anne, mãe de Will, é diagnosticada com câncer no pâncreas e descobre que tem pouco
tempo de vida, mãe e filho se servirão desse amor pela leitura para aproveitar juntos o tempo que lhe resta. Eles criam uma espécie de "clube do livro" só para os dois, para terem um momento só deles para conversar sobre o que leram, ou, como Will depois explica, para que ele tivesse a chance de perguntar e ouvir de Mary Anne suas histórias, suas vivências, seu amor pela vida e pela leitura. E é contando sobre os livros que leram juntos que essa relação mãe e filho se fortalece ainda mais, ajudando a administrar a dor da inevitável despedida.

O livro é um relato sincero e emocionado de um filho em busca de algum conforto diante da perda de sua mãe, mas é também uma celebração da vida que continua, apesar de. Pois nos livros que lemos, que compartilhamos com os amigos, que carregamos conosco por nossos caminhos, também deixamos muito de nós.

O livro não deixa de ser uma declaração de amor de um filho à sua mãe, alguém que ele muito admirava, e uma bonita homenagem à literatura e seu poder de aproximar as pessoas, de nos tornar mais humanos em nossos sentimentos, de nos ajudar a atravessar os momentos difíceis da vida.

Para os apaixonados por livros, resta ainda uma lista com ótimas indicações de livros para ler e compartilhar depois.

Will Schwalbe. The End of Your Life Book Club. Estados Unidos, Random House, 2012. 336 páginas.

sábado, 20 de abril de 2013

O estranho caso do cachorro morto


Em “O Estranho Caso do Cachorro Morto”(Record,2004. 288 p.), Mark Haddon conta a história de um garoto de 15 anos muito especial. Cristopher sabe todos os países do mundo e suas capitais e cada número primo até 7.057. Ele adora animais, mas não consegue decifrar e compreender bem as expressões de outras pessoas. Ele não suporta ser tocado e simplesmente odeia a cor amarela. Apesar de ter um cérebro extremamente lógico, sua mente percebe o mundo de forma bem literal. Cristopher sofre da Síndrome de Asperger, uma forma de autismo, o que torna as interações sociais algo muito complicado para o garoto.

Certa noite, Christopher encontra o cachorro da vizinha morto no jardim e, inspirado em seu personagem favorito, o detetive Sherlock Holmes, ele decide investigar esse crime e descobrir quem matou o animal. É através das aventuras de Cristopher que o autor nos ajuda a compreender, com graça e delicadeza, a forma peculiar de ver o mundo dos que sofrem dessa síndrome. Mark Haddon nos emociona com a história de uma família que poderia ser a minha ou a sua, com problemas e dificuldades normais, mostrando que precisamos nos colocar sempre no lugar do outro para compreender que o que julgamos diferente é só mais um jeito de ver o mundo ao nosso redor.


Haddon, Mark. O estranho caso do cachorro morto. Rio de Janeiro: Record, 2004. 288 p.

A redoma de vidro





“I took a deep breath and listened to the old brag of my heart. I am, I am, I am.”

Há tempos esse livro me espera aqui na minha estante, e eu nunca achava que fosse o momento. Mas ainda sigo acreditando que há o momento certo para cada livro que cruzará nosso caminho, por algum motivo. E talvez nunca estejamos realmente preparados para ler A Redoma de Vidro. Não porque a leitura seja difícil; o texto de Sylvia Plath flui elegantemente como uma correnteza, um turbilhão de ideias e emoções, e não conseguimos sair dele. Não conseguia parar de ler.

Já sabia que seria um livro triste, mas foi muito diferente de um romance comum sem final feliz. Passei dias digerindo essa história, a história mesmo de Plath, e só tenho a dizer que me marcou profundamente, que despertou em mim a maior compaixão. Tanto que fui pesquisar sobre a vida dela e tudo do livro foi ficando ainda mais claro.

É isso que Sylvia Plath faz em sua escrita: puxa uma cadeira para que o leitor se aproxime e se sente perto dela, sinta sua dor, sua angústia, como em uma conversa entre amigos. E quando a gente termina de ler, fica o mesmo vazio de quem perdeu o lugar na mesa.

Plath escrevia maravilhosamente e A Redoma de Vidro, além de uma demonstração clara de sua genialidade, é um grito de socorro em cada página. Pena que não foi ouvido.

Novecentos




Se há um adjetivo que não pode ser usado para descrever a literatura do escritor italiano Alessandro Baricco é a palavra previsível. Todo o encantamento de sua obra consiste em dizer tudo no não dizer, usando as entrelinhas para contar, com muita poesia, histórias que sempre surpreendem e emocionam.

Novecentos conta a história de um órfão que nasceu em um navio e, adotado pela tripulação, passou toda a sua vida no mar, tornando-se um dos maiores pianistas do mundo. Apesar de nunca ter posto os pés em terra firme, sua fama alcançou o mundo inteiro. Sua música carregava um pouco de cada canto do mundo, que ele conheceu através das muitas pessoas que viu chegar e partir do navio. Depois de 32 anos vividos no mar, Novecentos finalmente pensa em descer. Ele quer ver o mar, mas da terra. Essa mudança de perspectiva nos faz pensar em nossa própria maneira de ver as coisas, de ver o mundo.

O dilema de Novecentos, sua dúvida entre descer ou não descer do navio, é uma metáfora de nosso posicionamento diante da vida, da nossa vontade (e coragem) de enfrentar os desafios e o desconhecido para poder encontrar as alegrias que a vida oferece.

Novecentos foi adaptado para o cinema pelo diretor italiano Giuseppe Tornatore em A Lenda do Pianista do Mar (La Leggenda del Pianista Sull’oceano, 1998, 160 min) e foi o primeiro filme em inglês do diretor. Com Tim Roth no papel de Novecentos, o filme ganhou o globo de ouro de melhor trilha sonora e é um daqueles filmes que devemos ver antes de morrer.

Alessandro Baricco. Novecentos: um monólogo. Ed. Rocco, 2000. 72 páginas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Escada Rolante



Era um dia normal em um dos shoppings mais movimentados da cidade. Cidade grande, com muita gente passando de um lado para o outro com pressa, quase sem se ver. Caminhava distraída olhando as vitrines, em direção à livraria mais próxima, que ficava no andar inferior. Andei até a escada rolante, que costuma ser a forma mais rápida de se locomover nos prédios de vários andares, já que os elevadores costumam ser lentos e quase sempre estão congestionados.

Antes de dar o primeiro passo em direção à escada rolante para o andar de baixo, atrás de mim uma moça se despedia de uma senhora, ou pelo menos foi o que me pareceu. A senhora, talvez nos seus 70 anos, não sei dizer ao certo, dizer a idade dos outros nunca foi um talento meu. Sempre achei difícil dizer com certeza o que o tempo representou para cada coração. As duas se despediram e a senhora desceu sozinha.

Enquanto eu descia a escada observando a movimentação nos andares do shopping, movimento intenso de pessoas tão diferentes caminhando de um lado para o outro, a senhora que estava atrás de mim na escada puxou conversa:

- O problema para mim é só quando chega ali no final.

Já estávamos quase na metade da escada e imaginei que a senhora estivesse com medo de se desequilibrar na hora de descer. Sorri e tentei tranquilizá-la:

- Não tem problema, é só a senhora dar um passo quando estivermos perto do chão. Não se preocupe.

Então, chegamos no andar de baixo. Desci e olhei para trás, já me preparando para ter que ajudá-la caso a senhora baixinha se desequilibrasse. Mas quando olhei, a senhorinha segurava com as duas mãos no corrimão da escada e tinha dado um pulo (e não o passo cuidadoso que eu havia dito e que esperava) e agora gargalhava de alegria, um sorriso de travessura daqueles que há tempos eu não via. Baixinha e com os olhos brilhando, ela olhava para cima, para a escada que subia e me disse, como se compartilhasse um segredo: “Que delícia! Vou de novo!” E subiu na escada contrária à que acabávamos de descer. E lá foi ela, com o rosto corado do esforço do salto, sorrindo, subindo a escada outra vez.

Não sei precisar ao certo se aquela havia sido realmente a primeira vez da senhorinha ali na escada, ou se a brincadeira já durava alguns minutos. Talvez a filha ou a nora, de quem se despediu lá no início da descida, já estivesse cansada de tanta aventura em uma escada rolante e resolveu se sentar um pouco, para descansar as pernas. Talvez não julgasse ter mais idade para esse tipo de coisa, em meio a um shopping tão cheio de gente, o que as pessoas iriam pensar, ora essa.

Caminhei em direção ao estacionamento, não sem antes descer mais umas duas ou três escadas, lembrando de como eu e minha irmã nos divertíamos no shopping subindo e descendo incansavelmente as escadas, enquanto meus pais olhavam lá de baixo, sempre pedindo “Não corram”, “Tenham cuidado!”, “Escada não é brinquedo!” Mas para nós duas era sempre a maior aventura. Não sei ao certo a idade da moça, nem muito menos da senhorinha, nunca fui boa em dizer idades. Creio que nunca serei. Mas acredito que depois dessa história será mesmo impossível dizer quando alguém ainda é criança, ou quando alguém já não sabe mais ser. Talvez só seja possível afirmar alguma coisa depois de ver como esse alguém se comporta em uma escada rolante.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Outubro Rosa


O Outubro Rosa é o mês de conscientização e combate do câncer de mama. No Brasil, estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer), indicam que a doença será responsável por 52.680 novos casos até o fim do ano.
O movimento que dura o mês inteiro busca alertar sobre os riscos e a necessidade de diagnóstico precoce deste tipo de câncer, que é o segundo mais recorrente no mundo, perdendo apenas para o de pele.

Para pais e filhos


Com uma história cheia de ternura sobre um menino que era filho da chuva, o escritor português José Luís Peixoto faz sua estréia na literatura infantil. Em "A Mãe que Chovia" (Portugal, Editora Quetzal, 2012) JLP conta a história de um menino que, por ter uma mãe tão especial, precisa aprender a partilhá-la com o resto do mundo e a lidar com a saudade nos momentos em que ela está ausente.

O livro conta com lindas ilustrações de Daniel Silvestre da Silva e a poesia sempre presente nos textos do autor. Com essa história delicada e terna, JLP cria uma oportunidade maravilhosa para resgatar, no dia a dia atribulado dos tempos modernos, um tempo precioso entre pais e filhos: aquele momento dedicado à leitura e às histórias, permitindo uma conversa e um momento de interação valioso para a educação das crianças.

O livro certamente não se destina apenas às crianças, já que emociona adultos também, pois é uma grande homenagem ao amor incondicional das mães, representadas pela chuva que fertiliza, que dá vida, que inunda o mundo de amor. Uma linda história.

"Mesmo quando estou onde não podes estar, mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem o tamanho dessa certeza que nos une. Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe, choves essa palavra dentro de mim".


José Luís Peixoto. A Mãe que Chovia. Portugal: Quetzal, 2012.