sábado, 20 de abril de 2013

A redoma de vidro





“I took a deep breath and listened to the old brag of my heart. I am, I am, I am.”

Há tempos esse livro me espera aqui na minha estante, e eu nunca achava que fosse o momento. Mas ainda sigo acreditando que há o momento certo para cada livro que cruzará nosso caminho, por algum motivo. E talvez nunca estejamos realmente preparados para ler A Redoma de Vidro. Não porque a leitura seja difícil; o texto de Sylvia Plath flui elegantemente como uma correnteza, um turbilhão de ideias e emoções, e não conseguimos sair dele. Não conseguia parar de ler.

Já sabia que seria um livro triste, mas foi muito diferente de um romance comum sem final feliz. Passei dias digerindo essa história, a história mesmo de Plath, e só tenho a dizer que me marcou profundamente, que despertou em mim a maior compaixão. Tanto que fui pesquisar sobre a vida dela e tudo do livro foi ficando ainda mais claro.

É isso que Sylvia Plath faz em sua escrita: puxa uma cadeira para que o leitor se aproxime e se sente perto dela, sinta sua dor, sua angústia, como em uma conversa entre amigos. E quando a gente termina de ler, fica o mesmo vazio de quem perdeu o lugar na mesa.

Plath escrevia maravilhosamente e A Redoma de Vidro, além de uma demonstração clara de sua genialidade, é um grito de socorro em cada página. Pena que não foi ouvido.

Novecentos




Se há um adjetivo que não pode ser usado para descrever a literatura do escritor italiano Alessandro Baricco é a palavra previsível. Todo o encantamento de sua obra consiste em dizer tudo no não dizer, usando as entrelinhas para contar, com muita poesia, histórias que sempre surpreendem e emocionam.

Novecentos conta a história de um órfão que nasceu em um navio e, adotado pela tripulação, passou toda a sua vida no mar, tornando-se um dos maiores pianistas do mundo. Apesar de nunca ter posto os pés em terra firme, sua fama alcançou o mundo inteiro. Sua música carregava um pouco de cada canto do mundo, que ele conheceu através das muitas pessoas que viu chegar e partir do navio. Depois de 32 anos vividos no mar, Novecentos finalmente pensa em descer. Ele quer ver o mar, mas da terra. Essa mudança de perspectiva nos faz pensar em nossa própria maneira de ver as coisas, de ver o mundo.

O dilema de Novecentos, sua dúvida entre descer ou não descer do navio, é uma metáfora de nosso posicionamento diante da vida, da nossa vontade (e coragem) de enfrentar os desafios e o desconhecido para poder encontrar as alegrias que a vida oferece.

Novecentos foi adaptado para o cinema pelo diretor italiano Giuseppe Tornatore em A Lenda do Pianista do Mar (La Leggenda del Pianista Sull’oceano, 1998, 160 min) e foi o primeiro filme em inglês do diretor. Com Tim Roth no papel de Novecentos, o filme ganhou o globo de ouro de melhor trilha sonora e é um daqueles filmes que devemos ver antes de morrer.

Alessandro Baricco. Novecentos: um monólogo. Ed. Rocco, 2000. 72 páginas.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Escada Rolante



Era um dia normal em um dos shoppings mais movimentados da cidade. Cidade grande, com muita gente passando de um lado para o outro com pressa, quase sem se ver. Caminhava distraída olhando as vitrines, em direção à livraria mais próxima, que ficava no andar inferior. Andei até a escada rolante, que costuma ser a forma mais rápida de se locomover nos prédios de vários andares, já que os elevadores costumam ser lentos e quase sempre estão congestionados.

Antes de dar o primeiro passo em direção à escada rolante para o andar de baixo, atrás de mim uma moça se despedia de uma senhora, ou pelo menos foi o que me pareceu. A senhora, talvez nos seus 70 anos, não sei dizer ao certo, dizer a idade dos outros nunca foi um talento meu. Sempre achei difícil dizer com certeza o que o tempo representou para cada coração. As duas se despediram e a senhora desceu sozinha.

Enquanto eu descia a escada observando a movimentação nos andares do shopping, movimento intenso de pessoas tão diferentes caminhando de um lado para o outro, a senhora que estava atrás de mim na escada puxou conversa:

- O problema para mim é só quando chega ali no final.

Já estávamos quase na metade da escada e imaginei que a senhora estivesse com medo de se desequilibrar na hora de descer. Sorri e tentei tranquilizá-la:

- Não tem problema, é só a senhora dar um passo quando estivermos perto do chão. Não se preocupe.

Então, chegamos no andar de baixo. Desci e olhei para trás, já me preparando para ter que ajudá-la caso a senhora baixinha se desequilibrasse. Mas quando olhei, a senhorinha segurava com as duas mãos no corrimão da escada e tinha dado um pulo (e não o passo cuidadoso que eu havia dito e que esperava) e agora gargalhava de alegria, um sorriso de travessura daqueles que há tempos eu não via. Baixinha e com os olhos brilhando, ela olhava para cima, para a escada que subia e me disse, como se compartilhasse um segredo: “Que delícia! Vou de novo!” E subiu na escada contrária à que acabávamos de descer. E lá foi ela, com o rosto corado do esforço do salto, sorrindo, subindo a escada outra vez.

Não sei precisar ao certo se aquela havia sido realmente a primeira vez da senhorinha ali na escada, ou se a brincadeira já durava alguns minutos. Talvez a filha ou a nora, de quem se despediu lá no início da descida, já estivesse cansada de tanta aventura em uma escada rolante e resolveu se sentar um pouco, para descansar as pernas. Talvez não julgasse ter mais idade para esse tipo de coisa, em meio a um shopping tão cheio de gente, o que as pessoas iriam pensar, ora essa.

Caminhei em direção ao estacionamento, não sem antes descer mais umas duas ou três escadas, lembrando de como eu e minha irmã nos divertíamos no shopping subindo e descendo incansavelmente as escadas, enquanto meus pais olhavam lá de baixo, sempre pedindo “Não corram”, “Tenham cuidado!”, “Escada não é brinquedo!” Mas para nós duas era sempre a maior aventura. Não sei ao certo a idade da moça, nem muito menos da senhorinha, nunca fui boa em dizer idades. Creio que nunca serei. Mas acredito que depois dessa história será mesmo impossível dizer quando alguém ainda é criança, ou quando alguém já não sabe mais ser. Talvez só seja possível afirmar alguma coisa depois de ver como esse alguém se comporta em uma escada rolante.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Outubro Rosa


O Outubro Rosa é o mês de conscientização e combate do câncer de mama. No Brasil, estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer), indicam que a doença será responsável por 52.680 novos casos até o fim do ano.
O movimento que dura o mês inteiro busca alertar sobre os riscos e a necessidade de diagnóstico precoce deste tipo de câncer, que é o segundo mais recorrente no mundo, perdendo apenas para o de pele.

Para pais e filhos


Com uma história cheia de ternura sobre um menino que era filho da chuva, o escritor português José Luís Peixoto faz sua estréia na literatura infantil. Em "A Mãe que Chovia" (Portugal, Editora Quetzal, 2012) JLP conta a história de um menino que, por ter uma mãe tão especial, precisa aprender a partilhá-la com o resto do mundo e a lidar com a saudade nos momentos em que ela está ausente.

O livro conta com lindas ilustrações de Daniel Silvestre da Silva e a poesia sempre presente nos textos do autor. Com essa história delicada e terna, JLP cria uma oportunidade maravilhosa para resgatar, no dia a dia atribulado dos tempos modernos, um tempo precioso entre pais e filhos: aquele momento dedicado à leitura e às histórias, permitindo uma conversa e um momento de interação valioso para a educação das crianças.

O livro certamente não se destina apenas às crianças, já que emociona adultos também, pois é uma grande homenagem ao amor incondicional das mães, representadas pela chuva que fertiliza, que dá vida, que inunda o mundo de amor. Uma linda história.

"Mesmo quando estou onde não podes estar, mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem o tamanho dessa certeza que nos une. Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe, choves essa palavra dentro de mim".


José Luís Peixoto. A Mãe que Chovia. Portugal: Quetzal, 2012.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Todo o amor do mundo


Viva Gabriela

Quando em livrarias, nunca perco a chance de olhar pelo canto do olho para ver o que o vizinho na fila está levando. Pode ser uma promoção que eu não vi; pode ser um autor que ainda não conheço; pode ser apenas por curiosidade mesmo, porque um livro diz muita coisa sobre aquele que o lê. Hoje foi a vez de presenciar uma cena que partiu meu coração.

Gabriela, uma menina de 6 ou 7 anos, pedia aos pais para comprar um livro para ela. Abri um sorriso. Há coisa mais linda que uma criança pedindo para ler um livro? Por livre e espontânea vontade? Mas os pais de Gabriela, sem apreciar a situação com os mesmos olhos, diziam que não, que ela não leria o livro. Fiquei chocada. Em tempos em que fazemos de tudo para que as crianças apreciem a leitura, não consegui entender aqueles pais. A professora em mim sentiu vontade de chamar os dois para uma conversa, aquele puxão de orelha bem educado que, com o tempo, aprendemos a dar nessa profissão. Sim, pais também podem precisar de um puxão de orelha, e isso tem acontecido com cada vez mais frequência. Mas a leitora em mim sofria junto com Gabriela, porque não há coisa pior que desejar um livro e não poder lê-lo. Fiquei tão revoltada com a cena que não conseguia me desligar do que acontecia. Principalmente porque dinheiro não parecia ser o problema ali.

Por sorte, Gabriela não desistiu. Andava de um lado para o outro, entre o pai e a mãe, implorando pelo livro. Eu torcia por Gabriela. Com argumentação forte, quase indiscutível, Gabriela estava ganhando: “mas pai, você não disse que eu tenho que ser mais esperta? Que eu preciso aprender a responder melhor quando me fazem uma pergunta? E quando eu quero ler um livro você não o compra para mim?” Sem resposta, o pai cedeu, enfezado. Gabriela não me parecia em nada uma criança que não sabe responder perguntas. “Pode levar o livro, Gabriela”, finalmente disse o pai. “Mas você vai ter que me contar a história, para provar que leu e entendeu”. Senti uma vontade de comprar o livro do Daniel Pennac (Como um romance, L&PM, 2008), para dar de presente a esse pai, depois de tantas demonstrações de nada saber sobre a leitura, aquela verdadeira, aquela por amor, a que não deve satisfações a ninguém e verdadeiramente motiva as pessoas a continuar a ler durante toda a vida.

Respirei fundo enquanto pensava, como um mantra: a filha não é sua, Paula, não se meta. Quando achei que o assunto estava resolvido, escuto uma nova discussão. Lá estava Gabriela, com um segundo livro na mão. O pai, bravo, dizia que não levaria mais nenhum; a mãe, segurando um romance nas mãos, tentava ajudar Gabriela: é que a menina queria levar dois livros, e os pais, no máximo, levariam um só. A menina justificava a compra do segundo volume: “mas pai, eu estou tão curisosa para saber o que acontece! Por favor, compra para mim!” O pai, irritado, dizia que não e ponto final. Gabriela, determinada, apelou para a mãe: “mãe, meu pai é muito pão duro! Por favor, compra esse livro para mim, eu estou muito curiosa para ler! Ele compra um e você compra o outro!” A mãe parecia estar sensibilizada com a filha, mas apoiou o pai e aconselhava a menina a levar o primeiro, que parecia mais interessante. Um só, Gabriela. Não teve jeito. Gabriela continuou argumentando, mas viu que era melhor garantir um dos dois. Para meu espanto, a mãe dizia que o livro era muito grande e que ela não conseguiria ler. A menina respondia determinada: “já li livros muito maiores do que esse. E eu queria muito ler o outro também, vocês deviam comprar os dois!” A menina já estava mais conformada com um livro só, mas não desistia de argumentar. Jorge Amado ficaria orgulhoso, Gabriela.

Confesso que senti vontade de comprar o livro para a menina, mas fiquei com medo da reação dos pais, talvez eles se ofendessem com o meu gesto. Fiquei pensando na benção que é gostar de ler e queria muito ter dito a Gabriela que estava orgulhosa. Queria ter lhe comprado o livro. Quando saí da livraria, desejei: que nunca faltem livros para crianças como Gabriela, para que elas não desistam de escolher o que lhes for interessante para ler. Torci para que logo ela aprendesse o caminho de alguma biblioteca da escola, que encontrasse algum professor que a motivasse a ler por prazer, como deve ser. E torci também para que algum dia essas crianças como Gabriela ensinem seus pais a ler.

domingo, 19 de agosto de 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

'Til Kingdom Come

Só porque hoje é domingo e domingo é sempre um tédio. Em dias de tédio preciso desesperadamente de poesia, seja lá de que forma for.

quarta-feira, 18 de julho de 2012