terça-feira, 2 de outubro de 2012

Para pais e filhos


Com uma história cheia de ternura sobre um menino que era filho da chuva, o escritor português José Luís Peixoto faz sua estréia na literatura infantil. Em "A Mãe que Chovia" (Portugal, Editora Quetzal, 2012) JLP conta a história de um menino que, por ter uma mãe tão especial, precisa aprender a partilhá-la com o resto do mundo e a lidar com a saudade nos momentos em que ela está ausente.

O livro conta com lindas ilustrações de Daniel Silvestre da Silva e a poesia sempre presente nos textos do autor. Com essa história delicada e terna, JLP cria uma oportunidade maravilhosa para resgatar, no dia a dia atribulado dos tempos modernos, um tempo precioso entre pais e filhos: aquele momento dedicado à leitura e às histórias, permitindo uma conversa e um momento de interação valioso para a educação das crianças.

O livro certamente não se destina apenas às crianças, já que emociona adultos também, pois é uma grande homenagem ao amor incondicional das mães, representadas pela chuva que fertiliza, que dá vida, que inunda o mundo de amor. Uma linda história.

"Mesmo quando estou onde não podes estar, mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem o tamanho dessa certeza que nos une. Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe, choves essa palavra dentro de mim".


José Luís Peixoto. A Mãe que Chovia. Portugal: Quetzal, 2012.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Todo o amor do mundo


Viva Gabriela

Quando em livrarias, nunca perco a chance de olhar pelo canto do olho para ver o que o vizinho na fila está levando. Pode ser uma promoção que eu não vi; pode ser um autor que ainda não conheço; pode ser apenas por curiosidade mesmo, porque um livro diz muita coisa sobre aquele que o lê. Hoje foi a vez de presenciar uma cena que partiu meu coração.

Gabriela, uma menina de 6 ou 7 anos, pedia aos pais para comprar um livro para ela. Abri um sorriso. Há coisa mais linda que uma criança pedindo para ler um livro? Por livre e espontânea vontade? Mas os pais de Gabriela, sem apreciar a situação com os mesmos olhos, diziam que não, que ela não leria o livro. Fiquei chocada. Em tempos em que fazemos de tudo para que as crianças apreciem a leitura, não consegui entender aqueles pais. A professora em mim sentiu vontade de chamar os dois para uma conversa, aquele puxão de orelha bem educado que, com o tempo, aprendemos a dar nessa profissão. Sim, pais também podem precisar de um puxão de orelha, e isso tem acontecido com cada vez mais frequência. Mas a leitora em mim sofria junto com Gabriela, porque não há coisa pior que desejar um livro e não poder lê-lo. Fiquei tão revoltada com a cena que não conseguia me desligar do que acontecia. Principalmente porque dinheiro não parecia ser o problema ali.

Por sorte, Gabriela não desistiu. Andava de um lado para o outro, entre o pai e a mãe, implorando pelo livro. Eu torcia por Gabriela. Com argumentação forte, quase indiscutível, Gabriela estava ganhando: “mas pai, você não disse que eu tenho que ser mais esperta? Que eu preciso aprender a responder melhor quando me fazem uma pergunta? E quando eu quero ler um livro você não o compra para mim?” Sem resposta, o pai cedeu, enfezado. Gabriela não me parecia em nada uma criança que não sabe responder perguntas. “Pode levar o livro, Gabriela”, finalmente disse o pai. “Mas você vai ter que me contar a história, para provar que leu e entendeu”. Senti uma vontade de comprar o livro do Daniel Pennac (Como um romance, L&PM, 2008), para dar de presente a esse pai, depois de tantas demonstrações de nada saber sobre a leitura, aquela verdadeira, aquela por amor, a que não deve satisfações a ninguém e verdadeiramente motiva as pessoas a continuar a ler durante toda a vida.

Respirei fundo enquanto pensava, como um mantra: a filha não é sua, Paula, não se meta. Quando achei que o assunto estava resolvido, escuto uma nova discussão. Lá estava Gabriela, com um segundo livro na mão. O pai, bravo, dizia que não levaria mais nenhum; a mãe, segurando um romance nas mãos, tentava ajudar Gabriela: é que a menina queria levar dois livros, e os pais, no máximo, levariam um só. A menina justificava a compra do segundo volume: “mas pai, eu estou tão curisosa para saber o que acontece! Por favor, compra para mim!” O pai, irritado, dizia que não e ponto final. Gabriela, determinada, apelou para a mãe: “mãe, meu pai é muito pão duro! Por favor, compra esse livro para mim, eu estou muito curiosa para ler! Ele compra um e você compra o outro!” A mãe parecia estar sensibilizada com a filha, mas apoiou o pai e aconselhava a menina a levar o primeiro, que parecia mais interessante. Um só, Gabriela. Não teve jeito. Gabriela continuou argumentando, mas viu que era melhor garantir um dos dois. Para meu espanto, a mãe dizia que o livro era muito grande e que ela não conseguiria ler. A menina respondia determinada: “já li livros muito maiores do que esse. E eu queria muito ler o outro também, vocês deviam comprar os dois!” A menina já estava mais conformada com um livro só, mas não desistia de argumentar. Jorge Amado ficaria orgulhoso, Gabriela.

Confesso que senti vontade de comprar o livro para a menina, mas fiquei com medo da reação dos pais, talvez eles se ofendessem com o meu gesto. Fiquei pensando na benção que é gostar de ler e queria muito ter dito a Gabriela que estava orgulhosa. Queria ter lhe comprado o livro. Quando saí da livraria, desejei: que nunca faltem livros para crianças como Gabriela, para que elas não desistam de escolher o que lhes for interessante para ler. Torci para que logo ela aprendesse o caminho de alguma biblioteca da escola, que encontrasse algum professor que a motivasse a ler por prazer, como deve ser. E torci também para que algum dia essas crianças como Gabriela ensinem seus pais a ler.

domingo, 19 de agosto de 2012

domingo, 5 de agosto de 2012

'Til Kingdom Come

Só porque hoje é domingo e domingo é sempre um tédio. Em dias de tédio preciso desesperadamente de poesia, seja lá de que forma for.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

Feita na Bahia.


Para chamar boas energias. Sempre.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Tempo de delicadezas

 
Maio chegou e os presentes começaram a chegar também, para minha alegria. Ganhei de uma amiga esse desenho de um artista com uma frase linda do Ariano Suassuna que tem tudo a ver comigo. Vou colocar em uma moldura e essa vai para a parede do meu quarto. Seja bem-vindo, maio! :)

Acabei descobrindo que o presente veio dessa loja aqui, cheia coisas lindas: Tertúlia Quem gostou pode comprar online :)

Hemingway

Hemingway quando jovem. Lindo de morrer.

Fonte: Hemingway in seinem Krankenbett im Lazarett des Roten Kreuzes im Juli 1918. | © Earl Theisen/Edition Olms Zürich

O filho de mil homens

"Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça." (página 69)

 Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2011. 208 pp.