terça-feira, 1 de maio de 2012

Tempo de delicadezas

 
Maio chegou e os presentes começaram a chegar também, para minha alegria. Ganhei de uma amiga esse desenho de um artista com uma frase linda do Ariano Suassuna que tem tudo a ver comigo. Vou colocar em uma moldura e essa vai para a parede do meu quarto. Seja bem-vindo, maio! :)

Acabei descobrindo que o presente veio dessa loja aqui, cheia coisas lindas: Tertúlia Quem gostou pode comprar online :)

Hemingway

Hemingway quando jovem. Lindo de morrer.

Fonte: Hemingway in seinem Krankenbett im Lazarett des Roten Kreuzes im Juli 1918. | © Earl Theisen/Edition Olms Zürich

O filho de mil homens

"Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adulto que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstratas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o teto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com teto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça." (página 69)

 Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo: Cosac Naify, 2011. 208 pp.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia Mundial do Livro

Em 1904, Kafka escreveu a seu amigo Oskar Polak: "No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito." (Uma história da leitura - Alberto Manguel)
Feliz Dia Mundial do Livro pra você. :)

domingo, 15 de abril de 2012

Blue Valentine






Simplesmente apaixonei.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Birth of a book

Acordo, de manhãzinha, e é ainda cedo...

Acordo, de manhãzinha, e é ainda cedo, demasiado cedo para gestos bruscos, urgentes, como levantar, tomar duche, comer o pão, beber o café. Nesses momentos, em que já não é o sono que se prolonga mas o prazer quase animal de poder ali estar, recordo as páginas lidas horas antes, noite dentro, e a certeza de que o livro continua à minha espera enche-me duma alegria a que não sei dar nome, porque vem da infância mas não é exactamente infantil, porque é uma alegria feita de emoções, de medos, de surpresas, de encantamento, de incredulidade, de todas as coisas que fazem com que um texto me dê prazer, isto é: me comova ou me magoe.
Ou então, acordo e penso que o livro acabou ontem, tendo eu prolongado as horas de leitura nocturna para o poder terminar, como se não soubesse já que os livros amados devem ler-se muito devagarinho, adiando o inadiável fim, distendendo o prazer de cada página, cada frase, cada palavra. Sei, no entanto, que a esse livro se seguirá imediatamente outro, um que me espera na pilha que fui fazendo, ao sabor de coisas tão diferentes como uma crítica lida, a paixão por aquele escritor, a vontade de descobrir um que ainda não conheço ou tão-só o desejo súbito, numa livraria, de levar para casa um livro novo.
Ou ainda, acordo e penso que me apetece comprar um livro, dois, três, muitos, e que esse é um dia bom, porque é então que o desejo se torna realidade, e que passearei pelos corredores das livrarias, abrindo uns, folheando outros, sabendo que, muitas vezes, não sou eu quem escolhe o livro mas sim o livro que me escolhe a mim.

Maria Manuel Viana. Daqui ó

domingo, 25 de março de 2012

A língua absolvida

"Alguns meses depois de meu ingresso na escola, aconteceu algo solene e excitante que determinou toda a minha vida futura. Meu pai me trouxe um livro. Levou-me para um quarto dos fundos, onde as crianças costumavam dormir, e o explicou para mim. ...Falou-me, de forma animadora e séria, de como era lindo ler. Leu-me uma das histórias; tão bela como esta seriam também as outras do livro. Agora eu deveria tentar lê-las, e à noite eu lhe contaria o que havia lido. Quando eu acabasse de ler este livro, ele me traria outro. Não precisou dizê-lo duas vezes, e, embora na escola começasse a aprender a ler, logo me atirei sobre o maravilhoso livro, e todas as noites tinha algo para contar. Ele cumpriu sua promessa, sempre havia um novo livro e não tive que interromper minha leitura um dia sequer."

Elias Canetti. A língua absolvida: história de uma juventude.

Travellin on

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A arte de não fazer planos

Sempre que me perguntam sobre o futuro, ou como imagino minha vida daqui a alguns anos, nunca sei ao certo o que responder. Sempre olho admirada para essas pessoas que afirmam com tanta certeza seus planos para o amanhã, como se o futuro fosse coisa que se pudesse prever. Nunca tive muito talento para planejar as coisas, mas nem por isso coisas boas deixaram de acontecer.

Desde pequenos crescemos ouvindo perguntas difíceis como "o que você quer ser quando crescer?" e aprendemos rapidamente a responder algo, ainda que na verdade não façamos ideia do verdadeiro sentido de uma pergunta assim. Com o passar dos anos, somos cada vez mais requisitados a declarar aos quatro ventos os nossos planos e objetivos para o futuro, principalmente nessa sociedade competitiva em que vivemos hoje.

Mais importante do que essa capacidade de fazer planos é a forma como pretendemos alcançar o que desejamos ou talvez ainda a nossa própria capacidade de desejar. Não será nada útil passar a vida inteira desejando coisas impossíveis ou coisas que nada tenham a ver realmente com o que somos. Muitas vezes nos deixamos influenciar pelo que outras pessoas desejam para nós, sendo que na grande maioria das vezes esses planos não nos farão felizes. Ou estabelecemos objetivos tão difíceis, prazos tão surreais, que nos frustramos quando o tempo passa e não conseguimos realizá-los e ficamos tão cegos que não sabemos olhar ao redor e ver todo o resto que conseguimos. É preciso muita coragem e muita personalidade para não ser o que esperam de nós.

Que a vida é feita de escolhas, todos nós já sabemos. Para alguns, o mais importante pode ser trabalhar vinte e quatro horas por dia para ganhar dinheiro, mesmo não tendo tempo nem para a família. Para outros, pode ser mais importante trabalhar menos horas e ter uma melhor qualidade no tempo gasto, seja no trabalho, seja com a família. São pequenas escolhas que fazemos todos os dias, cuja importância nem percebemos.

Hoje em dia quase todo mundo parece se esquecer de que a vida também é feita de surpresas, de planos que não saíram como planejamos, mas que deram certo de uma outra maneira. Ou de coisas que nem esperávamos que acontecessem e que nos fazem infinitamente felizes quando acontecem. Talvez mais importante do que saber planejar o futuro seja nossa capacidade de nos adaptar ao que acontecer, sem nos frustrar diante das surpresas, sejam elas boas ou ruins, sabendo até mesmo apreciá-las. Afinal, como John Lennon sabiamente disse uma vez, a vida é isso que nos acontece enquanto fazemos outros planos.