terça-feira, 31 de agosto de 2010

Vocação

"A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez."

Mia Couto. Antes de nascer o mundo. Companhia das letras, 2009. pág. 13

terça-feira, 20 de julho de 2010

Um velho que lia romances de amor



Um pequeno grande romance, é o que posso dizer de "Um velho que lia romances de amor". Com um título que desperta a curiosidade do leitor e que representa um pouco da ternura que podemos encontrar nas páginas dessa história, Luis Sepúlveda, escritor chileno, nos presenteia com um protagonista singular e realmente apaixonante, que um dia se deparou com a literatura e se apaixonou pelas histórias. Mas não qualquer história, apenas histórias de amor.

O livro tem como pano de fundo a tragédia da devastação ambiental e nos faz refletir sobre o avanço insensato da civilização sobre a Natureza, já que toda a história se passa em plena Floresta Amazônica. 
Eu realmente me encantei pelo livro, por conseguir passar uma ternura e uma nostalgia pela sabedoria dos mais velhos, que hoje em dia quase sempre não é mais respeitada; por essa sabedoria antiga e quase intuitiva que existia antigamente de coexistir, homem e natureza, em um mesmo território, cada um respeitando seu poder e sua força; mas principalmente me encantei pela forma como o Luis Sepúlveda consegue descrever esse encantamento pela literatura.

"Como fazia parte do primeiro turno, o velho tomou posse da lamparina. Seu companheiro de vigília o olhava, perplexo, percorrendo com a lupa os signos ordenados no livro.
- É verdade que você sabe ler, compadre?
- Um pouco.
- E o que está lendo?
- Um romance. Mas fique quieto. Quando você fala a chama se move e as letras ficam dançando.
O outro se afastou para não incomodar, mas era tanta a atenção que o velho dispensava ao livro que não suportou ficar à margem.
- De que se trata?
- Do amor.
Diante da resposta do velho, o outro se aproximou com interesse renovado.
- Não me goze. Com fêmeas bonitas, fogosas?
O velho fechou o livro de repente, fazendo vacilar a chama da lamparina.
- Não. Trata-se de outro amor. Do que dói."

Luis Sepúlveda. Um velho que lia romances de amor. Relume Dumará, 2006. 136 páginas.

Link para o filme "Um velho que lia romances de amor"

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Uma real leitora


Sempre me interesso pelos livros que falam do amor aos livros e do quanto a leitura pode mudar a vida das pessoas para melhor. No caso de "Uma real leitora", achei que o livro superou minhas expectativas. A história é divertida e bem gostosa de ler, e muito bem inventada, pois ficamos mesmo com a impressão de que a personagem principal é a rainha da Inglaterra. Na história, a rainha, cuja vida era muito desinteressante, descobre o prazer da leitura e passa a ler cada dia mais, mudando muito a rotina da vida no palácio. Com isso, passa a se interessar cada dia menos pelos eventos da realeza para poder desfrutar de uma boa leitura. Além disso, a leitura lhe permite refletir mais sobre sua função. À medida que lê, cada dia sente mais vontade de encontrar pessoas com quem possa conversar sobre os livros, mas as pessoas ao seu redor não se interessam nem um pouco pela leitura. Qualquer semelhança com a realidade dos muitos leitores apaixonados que existem por aí não é uma mera coincidência. Apesar de ter ficado um pouquinho decepcionada com o final, acho que o livro vale a pena principalmente se você for apaixonado por livros. Garanto que a identificação em determinadas situações descritas no livro será imediata :)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Mar

Certos dias precisam de um poema para conseguir ganhar asas. Hoje eu vou de Sophia de Mello Breyner Andresen:

Mar

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A louca da casa



"Falar de literatura, então, é falar da vida; da própria vida e da vida dos outros, da felicidade e da dor. E é também falar do amor, porque a paixão é o maior invento das nossas existências inventadas, a sombra de uma sombra, a pessoa adormecida que sonha que está sonhando. E bem lá no fundo de tudo, para além das nossas fantasmagorias e dos nossos delírios, momentaneamente contida por esse punhado de palavras tal como o dique de areia de um menino contém as ondas da praia, surge a Morte, tão real, mostrando suas orelhas amarelas."

Rosa Montero. A Louca da Casa. Rio de Janeiro: Ed. Agir, 2008. pág. 12


Depois de ter lido a resenha da minha amiga Sandra, a quem serei sempre grata por essa indicação, mesmo que involuntária, fiquei desejando ler "A louca da casa" e conhecer um pouco da Rosa Montero, cujo trabalho desconhecia. Mas o livro estava esgotado e eu não conseguia encontrá-lo. Eis então que ele vem parar nas minhas mãos por meio de uma troca no Skoob, o que me fez acreditar ainda mais na frase que li um tempo atrás em "A sociedade literária e a torta de casca de batata": "talvez haja algum instinto secreto nos livros que os leve a seus leitores perfeitos", e por perfeitos aqui eu entendo como sendo aqueles que mais os desejam.
O fato é que me apaixonei pela forma como a Rosa Montero fala de literatura, sobre a arte de escrever e principalmente com a forma com que ela nos dá exemplos no livro do poder da imaginação. Acho que todos os escritores, ou os que pretendem ser escritores um dia, têm muito a ganhar com a leitura desse livro e com a reflexão maravilhosa que a Rosa Montero faz. E mesmo que escrever não seja seu objetivo, acredito que os leitores apaixonados também vão curtir essa viagem pelo universo da literatura na companhia da Rosa Montero. Recomendo!

"A literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas e não de respostas". [pág. 43]

"Um leitor tem uma vida muito mais longa que as outras pessoas, porque não morre antes de acabar o livro que está lendo". [pág.143]

"A morte também é leitora, por isso recomendo ter sempre algum livro na mão, porque assim quando a morte chega e vê o livro, se espicha toda para ver o que você está lendo, como eu faço no ônibus, e então se distrai". [pág. 143]

sábado, 26 de junho de 2010

Poesia quase domingueira

TÁTICA E ESTRATÉGIA

Minha tática é te olhar
aprender como és
te querer como és
Minha tática é te falar
E te escutar
Construir com palavras
Uma ponte indestrutível
Minha tática é
Ficar em tua lembrança
Não sei como
Nem sei com que pretexto
Mas ficar contigo
Minha tática é ser franco
E saber que tu és franca
E que não nos vendamos
Fingimentos
Para que entre nós
Não haja véus nem abismos
Minha estratégia é em troca
Mais profunda e mais simples
Minha estratégia é
Que um dia qualquer
Não sei como
Nem sei com que pretexto
Enfim de mim precises.

MARIO BENEDETTI

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Navegante

De mim
exijam pouco...

Pois o tempo
que me resta
é louca busca
de como atravessar
o Sol...

Damário da Cruz, poeta baiano

domingo, 23 de maio de 2010

Previsão metereológica

Previsão metereológica

Nenhum
dia é triste!
Nós é que chovemos
na hora errada.

Damário da Cruz
In Segredo das Pipas

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O último vôo


Li em algum lugar hoje que o poeta baiano Damário da Cruz fez seu último vôo na madrugada dessa sexta feira. Logo ele que fez voar tantas palavras, e até criou um lugar especial para pousá-las, na cidade de Cachoeira, no interior da Bahia. E de lá do Pouso da palavra, meu pai há alguns anos trouxe de presente pra mim um poema-cartaz lindo, que passou a ser um dos meus favoritos e que por muito tempo habitou as paredes de meu quarto. São palavras que conseguem voar com tanta suavidade e que dizem tanto, que certamente não serão esquecidas. E tenho certeza de que esse não foi o último vôo de Damário da Cruz. Apenas mais um vôo dos muitos que ainda virão.

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O Poeta e jornalista Damário da Cruz, morreu na madrugada desta sexta-feira (21) no Hospital Jorge Valente, em Salvador. Ele vinha realizando há meses um tratamento contra câncer de pulmão. Poeta e jornalista, o corpo dele está sendo velado até o meio-dia no Cemitério Jardim da Saudade na capital.

No início da tarde, segue para Cachoeira, cidade em que vivia, onde será velado no prédio da Câmara de Vereadores e, em seguida, sepultado no Cemitério da Piedade. (Fonte: Correio da Bahia)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A canção de Kahunsha


Um livro extremamente triste e doloroso. Perturbador, eu diria, por nos tirar de nosso comodismo e nos transportar para a realidade cruel de tantas crianças, não apenas na Índia, como contado no livro, mas em nosso próprio país. E é angustiante ver crianças cheias de sonhos e esperanças, com os corações puros, serem atropeladas pela vida e pela brutalidade dos homens.
Em A Canção de Kahunsha sofremos ao acompanhar a história de Chamdi, um garoto de 10 anos que vive em um orfanato em Bombaim onde, ainda bebê, foi abandonado pelo pai. Após sobreviver durante anos em condições bem simplórias, o orfanato será fechado e Chamdi decide antes disso fugir e ir em busca de seu pai. E essa esperança de encontrar o pai que o abandonou infelizmente o levará para as ruas violentas de Bombaim, onde a pobreza predomina e as crianças deixam de ser crianças cedo demais.
Um livro de cortar o coração. Não só por nos mostrar sem eufemismos a dura realidade da vida nas ruas em uma cidade que não fica muito distante das nossas, mas por nos sacudir com a esperança e o olhar sempre em busca de sonhos e de coisas belas que um menino consegue manter mesmo diante das maiores dificuldades.

Anosh Irani. A canção de Kahunsha. Ed. Planeta, 2008.