domingo, 16 de maio de 2010

A Trégua


Um grande amor pode ser uma trégua na vida

Depois de ler "A Trégua" do Mario Benedetti, não consegui ler nenhum outro livro hoje, como pretendia ter feito. Parece que a história ainda estava em mim e nada mais cabia. Tampouco conseguia dizer algo sobre o que li, como se quisesse guardar todas as palavras, todos os sentimentos contidos nesse pequeno livrinho só para mim. Danniel Pennac, em Como um romance, um outro favorito, diz, na página 75, que: "Aquilo que lemos, calamos. O prazer do livro lido, guardamos, quase sempre, no segredo de nosso ciúme. Seja porque não vemos nisso assunto para discussão, seja porque, antes de podermos dizer alguma coisa, precisamos deixar o tempo fazer seu delicioso trabalho de destilação. E este silêncio é a garantia de nossa intimidade. O livro foi lido, mas estamos nele, ainda.Lemos e calamos. Calamos porque lemos". E Pennac tem toda razão. Certos livros despertam em nós tantos sentimentos que, como leitores, temos todo o direito de nos calar, de nada dizer. Permaneço em silêncio, porque o livro ainda está em mim, sendo destilado lentamente. Que ele seja uma pequena "trégua" no meu dia. Mas recomendo esse livro com todas as estrelas, o melhor do Benedetti que eu já li até hoje. Pela sutileza, pela forma delicada com que ele constrói um personagem emocionalmente tão complexo, com que ele traça sua solidão, sua redescoberta do amor depois de tanto tempo. Acho que esse é um livro que não envelhece nunca por falar de sentimentos atemporais que, ao meu ver, fazem parte da vida dos grandes centros urbanos, independente do país ao qual pertençam. Reitero meu encantamento por esse escritor uruguaio que consegue por no papel todas as vozes e todos os silêncios de um coração.

Mario Benedetti. A Trégua. Porto Alegre: L&PM, 2008.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Livros e amigos

"Se a leitura não é um ato de comunicação imediata, é, certamente, um objeto de partilhamento. [...] Aquilo que lemos de mais belo deve-se, quase sempre, a uma pessoa querida. E é a essa mesma pessoa querida que falamos primeiro. Talvez porque, justamente, é próprio do sentimento, como do desejo de ler, preferir. Amar é, pois, fazer dom de nossas preferências àqueles que preferimos. E esses partilhamentos povoam a invisível cidadela de nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos."
Daniel Pennac. Como um romance. L&PM, 2008.

Momo e o senhor do tempo


Às vezes, basta um trechinho de um livro para despertar em nós o desejo de ler. Foi assim com Momo, quando tive a oportunidade de ler um pequeno trecho na minha aula de alemão. E desejando ler a história inteira, saí em busca do livro, feito uma criança. Não me arrependi.
Enganam-se os que talvez estejam torcendo o nariz para o livro se pensam que é um livro apenas para crianças só porque pode ser encontrado na seção de livros juvenis das livrarias. Não é. A história de Momo nos faz pensar sobre o tempo e sobre os tempos modernos de uma forma tão delicada e tão bonita que pode ser muito útil para muitos adultos dos dias de hoje. Felizes as crianças que puderem lê-lo, mas talvez mais felizes sejam os adultos que possam se reencontrar ao ler esse livrinho amarelo.
É um favorito.


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"Existe um mistério muito grande que, no entanto, faz parte do dia-a-dia. Todos os seres humanos participam dele, embora muito poucos reflitam sobre ele. A maioria simplesmente o aceita, sem mais indagações. Esse mistério é o tempo.
Existem calendários e relógios que o medem, mas significam pouco, ou mesmo nada, porque todos nós sabemos que uma hora às vezes parece uma eternidade e, outras vezes, passa como um relâmpago, dependendo do que acontece nessa hora. Tempo é vida. E a vida mora no coração." [pág.53]
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“Es gibt ein groβes und doch ganz alltägliches Geheimnis. Alle Menschen haben daran teil, jeder kennt es, aber die wenigsten denken je darüber nach. Die meisten Leute nehmen es einfach so hin und wundern sich kein bisschen darüber. Dieses Geheimnis ist die Zeit. Es gibt Kalender und Uhren, um sie zu messen, aber das will wenig besagen, den jeder weiβ, dass einem eine einzige Stunde wie eine Ewigkeit vorkommen kann. […] Denn Zeit ist Leben. Und das Leben wohnt im Herzen.”

Michael Ende. Momo e o senhor do tempo. Martins Fontes, 1995. 

segunda-feira, 29 de março de 2010

Despedidas

"O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.

Desci. Sentei-me perto, muito perto da Avó Agnette.
Ficámos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.

- Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
- Vão para casa, filho.
- Tantas vezes de um lado para o outro?
- Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou. - É uma coisa que se encontra."

Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua geral, 2007. pág. 146

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É um livro que recomendo para leitores de todas as idades. Porque vale a pena relembrar e reviver essa época de olhos miúdos que brilhavam de esperança, mesmo que seja por alguns instantes.

"Antigamente as pessoas eram pessoas de chegar. Não sabíamos fazer despedidas". [pág. 137]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Para aquecer corações




Ontem, passeando por uma das livrarias da cidade, vi o livro Escola dos sabores. Compulsiva por livros que sou, comprei e o livro superou minhas expectativas. Achei a história tão delicada e doce que li ontem à noite de uma vez só.

É no curso de culinária, que acontece na segunda-feira à noite de cada mês no restaurante da chef Lílian, que oito pessoas se encontrarão para aprender a cozinhar. Cada uma delas com um motivo diferente para estar lá, cada uma com sua história, com suas dores.

À medida que as aulas se passam, vamos conhecendo cada uma das personagens e cada um deles encontrará nas refeições, no prepraro cuidadoso dos alimentos, aquilo que seu coração precisa.

Um livro que fala dessa arte que requer tanta sensibilidade quanto escrever que é a culinária e que, feito mágica, consegue aquecer o coração das pessoas. Uma história que fala de amizades, de superação, de encontros e reencontros, de se descobrir outra vez depois de muito tempo. Uma história de pessoas reais, que nos presenteia com o universo encantado de uma cozinha, com seus aromas que trazem lembranças, com suas texturas que lembram sensações, com sabores que nos enchem de vida.

Livro para quem acredita no poder que os alimentos preparados com carinho têm para aproximar pessoas, curar dores da alma e aquecer corações.

Recomendo principalmente para quem gosta de fazer mágica na cozinha e aquecer corações.

Erica Bauermeister. Escola dos sabores. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. Trad. Fernanda Abreu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Eu sou.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Licença Poética (Adélia Prado)
Poema extraído do livro "Bagagem", 1976

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Onde você estiver.

"O essencial é adaptar-se. Já sei que com essa idade é difícil. Quase impossível. E contudo. Afinal de contas, meu exílio é meu. Nem todos têm um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. Tentativa inútil. Transformeio-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto."

Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. pág. 17

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Para pensar.

"De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, a desanimar-se da justiça e a ter vergonha de ser honesto."

Rui Barbosa

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Dica

Dois blogs que eu amo e que valem a pena conhecer. Gente que escreve feito gente grande:

Eduardo Baszczyn
http://coisasdagaveta.blogspot.com/

Cris Lisboa
http://cristianelisboa.wordpress.com/

Meu presente de hoje pra vocês.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sempre Clarice.

"Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar porque, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora advinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.
E depois saberei como pintar e escrever, depois da estranha mas íntima resposta. Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão."

Lispector. Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. pág. 14

Trecho do livro Água Viva, de Clarice Lispector. Uns dos livros mais lindos que já li de Clarice. Porque Clarice sempre sabe o que diz. E me entenderia.