sexta-feira, 7 de maio de 2010

Momo e o senhor do tempo


Às vezes, basta um trechinho de um livro para despertar em nós o desejo de ler. Foi assim com Momo, quando tive a oportunidade de ler um pequeno trecho na minha aula de alemão. E desejando ler a história inteira, saí em busca do livro, feito uma criança. Não me arrependi.
Enganam-se os que talvez estejam torcendo o nariz para o livro se pensam que é um livro apenas para crianças só porque pode ser encontrado na seção de livros juvenis das livrarias. Não é. A história de Momo nos faz pensar sobre o tempo e sobre os tempos modernos de uma forma tão delicada e tão bonita que pode ser muito útil para muitos adultos dos dias de hoje. Felizes as crianças que puderem lê-lo, mas talvez mais felizes sejam os adultos que possam se reencontrar ao ler esse livrinho amarelo.
É um favorito.


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"Existe um mistério muito grande que, no entanto, faz parte do dia-a-dia. Todos os seres humanos participam dele, embora muito poucos reflitam sobre ele. A maioria simplesmente o aceita, sem mais indagações. Esse mistério é o tempo.
Existem calendários e relógios que o medem, mas significam pouco, ou mesmo nada, porque todos nós sabemos que uma hora às vezes parece uma eternidade e, outras vezes, passa como um relâmpago, dependendo do que acontece nessa hora. Tempo é vida. E a vida mora no coração." [pág.53]
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“Es gibt ein groβes und doch ganz alltägliches Geheimnis. Alle Menschen haben daran teil, jeder kennt es, aber die wenigsten denken je darüber nach. Die meisten Leute nehmen es einfach so hin und wundern sich kein bisschen darüber. Dieses Geheimnis ist die Zeit. Es gibt Kalender und Uhren, um sie zu messen, aber das will wenig besagen, den jeder weiβ, dass einem eine einzige Stunde wie eine Ewigkeit vorkommen kann. […] Denn Zeit ist Leben. Und das Leben wohnt im Herzen.”

Michael Ende. Momo e o senhor do tempo. Martins Fontes, 1995. 

segunda-feira, 29 de março de 2010

Despedidas

"O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.

Desci. Sentei-me perto, muito perto da Avó Agnette.
Ficámos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.

- Não sei onde é que as lesmas sempre vão, avó.
- Vão para casa, filho.
- Tantas vezes de um lado para o outro?
- Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou. - É uma coisa que se encontra."

Ondjaki. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua geral, 2007. pág. 146

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É um livro que recomendo para leitores de todas as idades. Porque vale a pena relembrar e reviver essa época de olhos miúdos que brilhavam de esperança, mesmo que seja por alguns instantes.

"Antigamente as pessoas eram pessoas de chegar. Não sabíamos fazer despedidas". [pág. 137]

sexta-feira, 12 de março de 2010

Para aquecer corações




Ontem, passeando por uma das livrarias da cidade, vi o livro Escola dos sabores. Compulsiva por livros que sou, comprei e o livro superou minhas expectativas. Achei a história tão delicada e doce que li ontem à noite de uma vez só.

É no curso de culinária, que acontece na segunda-feira à noite de cada mês no restaurante da chef Lílian, que oito pessoas se encontrarão para aprender a cozinhar. Cada uma delas com um motivo diferente para estar lá, cada uma com sua história, com suas dores.

À medida que as aulas se passam, vamos conhecendo cada uma das personagens e cada um deles encontrará nas refeições, no prepraro cuidadoso dos alimentos, aquilo que seu coração precisa.

Um livro que fala dessa arte que requer tanta sensibilidade quanto escrever que é a culinária e que, feito mágica, consegue aquecer o coração das pessoas. Uma história que fala de amizades, de superação, de encontros e reencontros, de se descobrir outra vez depois de muito tempo. Uma história de pessoas reais, que nos presenteia com o universo encantado de uma cozinha, com seus aromas que trazem lembranças, com suas texturas que lembram sensações, com sabores que nos enchem de vida.

Livro para quem acredita no poder que os alimentos preparados com carinho têm para aproximar pessoas, curar dores da alma e aquecer corações.

Recomendo principalmente para quem gosta de fazer mágica na cozinha e aquecer corações.

Erica Bauermeister. Escola dos sabores. Rio de Janeiro: Sextante, 2010. Trad. Fernanda Abreu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Eu sou.

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Licença Poética (Adélia Prado)
Poema extraído do livro "Bagagem", 1976

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Onde você estiver.

"O essencial é adaptar-se. Já sei que com essa idade é difícil. Quase impossível. E contudo. Afinal de contas, meu exílio é meu. Nem todos têm um exílio próprio. A mim quiseram empurrar um alheio. Tentativa inútil. Transformeio-o em meu. Como foi? Isso não importa. Não é um segredo nem revelação. Eu diria que é preciso começar apoderando-se das ruas. Das esquinas. Do céu. Dos cafés. Do sol, e o que é mais importante, da sombra. É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua pára de vê-lo como um estranho. E assim com todo o resto."

Mario Benedetti. Primavera num espelho partido. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. pág. 17

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Para pensar.

"De tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantar-se o poder nas mãos dos maus, o homem chega a rir-se da honra, a desanimar-se da justiça e a ter vergonha de ser honesto."

Rui Barbosa

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Dica

Dois blogs que eu amo e que valem a pena conhecer. Gente que escreve feito gente grande:

Eduardo Baszczyn
http://coisasdagaveta.blogspot.com/

Cris Lisboa
http://cristianelisboa.wordpress.com/

Meu presente de hoje pra vocês.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Sempre Clarice.

"Quero escrever-te como quem aprende. Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra. Não quero perguntar porque, pode-se perguntar sempre por que e sempre continuar sem resposta: será que consigo me entregar ao expectante silêncio que se segue a uma pergunta sem resposta? Embora advinhe que em algum lugar ou em algum tempo existe a grande resposta para mim.
E depois saberei como pintar e escrever, depois da estranha mas íntima resposta. Ouve-me, ouve o silêncio. O que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão."

Lispector. Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. pág. 14

Trecho do livro Água Viva, de Clarice Lispector. Uns dos livros mais lindos que já li de Clarice. Porque Clarice sempre sabe o que diz. E me entenderia.

One.



Porque em dias assim, quando meu coração fica triste e de saco cheio de muita coisa errada que eu vejo por aí, só U2 me salva.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A sociedade literária e a torta de casca de batata



Sempre gostei de escrever cartas. Elas contam tantas histórias, aproximam tanto as pessoas, que acho uma pena que quase ninguém mais as escreva. Os livros contados por meio de cartas, chamados de romance epistolar, sempre foram para mim um atrativo a mais. Quem não gostaria de ter permissão para ler as cartas que outros receberam? Contado através de cartas, A sociedade literária e a torta de casca de batata é um livro feito a quatro mãos. Começou a ser escrito pela bibliotecária Mary Ann Shaffer, já com mais de 70 anos de idade, e terminou de ser escrito por Annie Barrows, sobrinha de Mary Ann. A bibliotecária infelizmente não chegou a ver o livro terminado, nem o sucesso que ele alcançou no mundo inteiro, pois faleceu em 2008. Mas a história criada por Mary Ann continua encantando leitores de todas as idades. Dizem que os direitos foram comprados por Hollywood e que será transformado em filme ainda esse ano.

Um livro com amizades tão bonitas, que talvez você fique até triste por perceber que nunca teve uma amizade assim. Amizades nascidas em uma sociedade literária (que tem um nome esquisito mesmo, que dá título ao livro, mas pode apostar que você só vai querer saber a razão do nome quando estiver lendo). 

Um livro que fala do quanto os livros, a arte, a poesia, podem mudar a vida da gente. E esse amor pelos livros está em cada página. É certamente um dos livros mais doces que eu já li. Por que nele eu vi muitas coisas bonitas nas quais acredito. Por que ele certamente me lembrará dessas coisas bonitas. Por que eu gostaria muito de escrever cartas para esses amigos e falar com eles sobre os livros de que gostei ou sobre qualquer outra coisa. E a parte mais dura da história talvez seja se convencer de que esses personagens foram mesmo inventados, de tão verdadeiros que eles são.

Um livro que fala sobre guerra, pois a ilha onde os habitantes da sociedade literária moraram, a ilha de Guernsey, foi ocupada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. E as coisas horríveis que aconteceram nessa época, e com as quais já nos horrorizamos tantas vezes, aparecerão na história sim e, se você for como eu, vai chorar sempre pela dor dos que sofreram. Mas em muitas outras páginas, na maioria delas, acredito, você vai se ver com o livro nas mãos e sorrindo. E quando você terminar de ler, certamente se sentirá feliz.

Um livro para ser lido e para ser dado de presente para aqueles amigos que compartilham com a gente o amor pela leitura, porque, como a autora diz "talvez haja algum instinto secreto nos livros que os leve a seus leitores perfeitos". Talvez eu não seja a leitora perfeita, mas certamente sou uma das mais apaixonadas. E eu fico feliz que esse livro tenha chegado às minhas mãos.

"É isto que amo na leitura: uma pequena coisa o interessa num livro, e essa pequena coisa o leva a outro, e um pedacinho que você lê nele o leva a um terceiro. Isso vai em progressão geométrica - sem nenhuma finalidade em vista, e unicamente por prazer". pág.20

Mary Ann Shaffer; Annie Barrows. A sociedade literária e a torta de casca de batata. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. 304 páginas