segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A traidora honrada

Ganhei esse livro de uma amiga querida de presente de natal e fiquei curiosa para ler mais uma escritora que eu não conhecia e de um país que ainda não constava em minha lista de leituras.

A traidora honrada é um romance que aborda traição e mentira em um vilarejo durante o rigoroso inverno escandinavo. A escrita aguda e tensa de Jansson causa desconforto, estranhamento. O enredo conta a história de uma ilustradora, Anna Aemelin, que há anos morava sozinha em uma casa grande e mais afastada do vilarejo. Katri Kling é uma daquelas pessoas que sabe o que quer e faz o possível para conseguir. Katri tem 25 anos e é bem misteriosa. Em um lugar onde é comum ter olhos azuis, ela tem olhos amarelados e mora em cima de uma mercearia com seu irmão, Mats, dez anos mais jovem. É uma mulher determinada, que não gosta de nada nem de ninguém, exceto de seu irmão. Os dois costumam ler em silêncio, lado a lado, todas as noites. Katri é muito boa com números, tem um cachorro e o respeita, mas  não gosta muito dele, nem para lhe dar um nome. Já Anna é uma mulher tranquila, que durante a primavera gosta de sentar-se ao ar livre para observar a floresta e desenhar, e é muito respeitada em todo o vilarejo por sua gentileza. Quando a neve do inverno cobre todo o vilarejo, Anna já não sai mais para trabalhar. Isolada, acaba aceitando que Katri e seu irmão Mats se mudem para sua casa, após uma falsa tentativa de arrombamento da casa, que a deixa assustada. Com seu jeito silencioso e solícito, Katri acaba entrando de tal forma na vida de Anna que passa a cuidar até mesmo de seus negócios. A partir daí tudo muda na vida dessas personagens, que possuem uma visão de mundo completamente diferente. A narrativa é angustiante e intensa. e expressa o conflito entre duas pessoas tão diferentes, mas também discute o que é a honestidade e as muitas faces da traição.

Toda a história se passa durante um longo inverno no qual as duas mulheres, com base em mentiras, aquelas que contamos para os outros e aquelas que contamos para nós mesmos, travarão uma espécie de batalha pelos seus ideais e terão muitas ilusões desfeitas. 
É um romance desconcertante, diferente, que terminamos de ler sem saber ao certo o que se passou durante a leitura das 160 páginas que não conseguimos deixar de ler até o fim.
O livro não foi nada do que eu estava esperando, e ainda estou pensando sobre ele, mas valeu a pena conhecer mais uma escritora que é muito aclamada na Escandinávia. E que também criou os Moomins :-)

Tove Jansson (1914-2001) nasceu em Helsinque e pertencia à minoria de língua sueca que vive na Finlândia. Teve seu primeiro trabalho de ilustração publicado aos 15 anos, e quatro anos depois publicou um livro sob pseudônimo. Após temporadas estudando Belas Artes em Paris, retornou a Helsinque, onde, nos anos 1940 e 1950, ganhou renome por suas pinturas e murais. De 1929 a 1953, trabalhou com ilustrações de humor e charges políticas para a Garm, uma revista antifascista de esquerda publicada na Finlândia e na Suécia. Moomintroll, um personagem sonhador e com feições que lembram um hipopótamo -  a mais famosa criação de Jansson - fez sua primeira aparição nessa revista. As aventuras de Moomintroll e da família Moomin renderam uma duradoura série de quadrinhos e uma extensa coleção de livros infantis. Jansson também é autora de onze romances e de coletâneas de contos para adultos, entre os quais The Summer Book. Em 1994, ela recebeu o Prêmio da Academia Sueca. Seus livros foram traduzidos para 44 idiomas. 

Para ler o primeiro capítulo do romance, clique aqui.
Para ver o museu virtual da escritora, clique aqui.
Para ler uma reportagem da BBC (em inglês) sobre o centenário de Jansson, clique aqui.

JANSSON, Tove. A traidora honrada. Belo Horizonte: Autêntica; Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2012. Tradução: Guilherme da Silva Braga. Coleção Just a Bubble.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Nas tuas mãos

"Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo" (Vergílio Ferreira)

Nas tuas mãos é um romance sobre três vidas, três gerações diferentes de mulheres cuja intimidade e solidão são descritas por Inês Pedrosa com a delicadeza de uma escrita bem elaborada que comove o leitor e o aproxima dessas personagens, imensamente humanas em suas dores, sentimentos e ilusões. Jenny, Camila e Natália revelam, cada uma de uma forma, aspectos da época em que vivem ao contar a sua própria história; suas vidas também são marcadas pela passagem do tempo e pelas mudanças da sociedade, da mesma forma que foram marcadas por amores e perdas, vivências comuns a todos nós. Assim, o romance é dividido em três partes: o diário de Jenny, o álbum de Camila e as cartas de Natália.

O diário de Jenny começa a ser narrado a partir de 1935. Em uma época em que o único destino para as mulheres era o casamento e a criação dos filhos, Jenny aceita se casar com Antonio nutrindo todas as expectativas que a sociedade da época nela depositava. Mas o casamento acaba por ser um casamento de fachada: Antonio amava Pedro, seu grande amigo, e mesmo sabendo desse amor, pela vergonha de se separar e ter que enfrentar todos os julgamentos que uma mulher divorciada enfrentaria, Jenny aceita em silêncio a solidão que seu casamento de fachada lhe destinava. Conviviam os três em sua grande casa, sem que ninguém jamais desconfiasse que nunca havia se tornado verdadeiramente mulher de Antonio. O tom confessional do diário de Jenny nos comove e aproxima dessa mulher que viveu toda a sua vida em solidão, nutrindo um amor platônico por Antônio. Logo sabemos que Pedro, em uma de suas brigas com Antonio, se relaciona com uma judia francesa e a engravida. Fugindo dos nazistas durante a guerra, Danielle deixa sua filha, Camila, aos cuidados de Jenny e, pouco depois de ser presa, morre no campo de concentração de Dachau. Camila é cuidada por Jenny como uma filha verdadeira e só muito depois passa a saber a história de sua mãe biológica e seu pai. Jenny, vivendo sem ser amada, agarra-se à maternidade como uma forma de não enlouquecer em sua solidão. É para Camila que ela escreve o seu diário, para que a sua filha compreenda melhor as circunstâncias de sua vida.

"Não procures explicação para a minha vida, nem a tomes com pena ou escândalo; quando eu ficar tão velha que pareça louca, lê nestes cadernos que eu fui feliz. Não te preocupes como ou quanto, nem caias na tentação de distinguir amor e paixão: a pouco e pouco, fui vendo que essas divisões são armadilhas que se montam para que o pano caia sobre os nossos olhos e a imortalidade desapareça do nosso horizonte. O amor, Camila, consiste na divina graça de parar o tempo. E nada mais se pode dizer sobre ele" (pp.24-25)

A segunda parte do livro é o álbum de Camila, que gostava de fotografias talvez porque a única coisa que sabia de sua mãe biológica constava em uma fotografia deixada para ela antes de partir. Camila, que foi presa e torturada durante a ditadura, e deixou de sorrir durante muito tempo. As influências do feminismo permeiam todas as ações de Camila, desde a sua postura, sua forma de se vestir, a sua resistência à ditadura da beleza às leituras que fazia (O segundo sexo, da Simone de Beauvoir, e Virginia Woolf, por exemplo). 

Algum tempo depois, Camila conhece Eduardo e eles se apaixonam perdidamente. Mas o destino dessas mulheres parece mesmo ser a solidão, e Camila perde Eduardo de forma trágica. Depois disso, Camila vai trabalhar como correspondente em Moçambique, mais na tentativa de buscar para si mesma a morte do que para recomeçar uma nova vida. Em África conhece Xavier, um militante da Frente de Libertação de Moçambique, um homem que também mudará o seu destino.

"Com Xavier, deixei pura e simplesmente de pensar. Concentrei-me em escutar o sangue do meu corpo até que a sua voz fosse mais poderosa do que o silêncio dos mortos que o secavam. Foi assim que gerei Natália. A milha filha de África, mais do que de Xavier. Desta forma ele a desejaria: herdeira da imensidão mais do que da história trágica de um homem. Para o Xavier, a tragédia era apenas uma prova da veemência da vida." (p. 110)

O romance, de forma geral, é muito rico para pensarmos questões pertinentes ao feminismo, afinal é um livro narrado a partir da perspectiva feminina e fala da vida de três mulheres distintas em épocas diferentes. Em um ano em que mais uma vez a questão do espaço e da igualdade de oportunidades no mundo literário foi bastante discutida, é interessante observar a personagem Josefa Nascimento, uma escritora amiga de Jenny que "publicava romances policiais sob o pseudónimo de Joseph Birth. "Pus meu nome em inglês macho para vender bem", explicava ela, aos poucos a que confiara a sua existência paralela" (p. 33). Josefa, assim como Virginia Woolf, havia sido impedida pelo pai de frequentar a Universidade e só conseguia publicar a sua escrita, bastante feminista, usando um nome masculino.

A solidão de Camila, seu relacionamento com Jenny durante a velhice, a morte de Antonio, a partida de Pedro e a relação mãe e filha com Natália, de quem era muito diferente, são abordados no álbum de Camila, com grande melancolia.

"Pensei que as imagens me poderiam curar, que poderia colar os instantâneos do mundo sobre o sangue do meu coração e fazê-lo parar. Pensei que o amor podia ser domesticado e o lado negro do instinto maternal racionalizado. Pensei demais. Tudo está escrito nos espaços brancos que ficam entre uma palavra e a seguinte. O resto não importa." (pp.140-141)

A terceira e última parte são as cartas de Natália para Jenny, sua avó, de quem era bem mais próxima. Tentando reencontrar seu verdadeiro amor, Natália segue escrevendo para Jenny, mesmo depois da morte da avó. A filha mulata de Camila, que não conheceu o pai e que sofria preconceito por sua cor em Portugal, viaja para África em busca de suas origens. O racismo e o amor entre mulheres também são temas abordados nesse romance tão fascinante e apaixonado de Inês Pedrosa que, principalmente na última parte, observa com o olhar atento a vida das mulheres em Moçambique e a opressão que de formas diferentes as atingem. Um livro sobre mulheres e para (mas não apenas) mulheres, que nos faz pensar sobre feminismo, casamento, maternidade, sexualidade, relações familiares etc e nas histórias que carregamos conosco e que sempre serão parte de nós. E essa (re)leitura, seis anos depois de ter me apaixonado por essa história pela primeira vez, comprovou que Nas tuas mãos continua sendo um dos meus livros preferidos da Inês.


PEDROSA, Inês. Nas tuas mãos. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2005. 222 páginas.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

As melhores leituras de 2014

O final do ano se aproxima e é hora de relembrar as melhores leituras de 2014 (quem não gosta de uma lista, não é mesmo?) 2014 foi um ano de muitos livros bons. Valeu muito a pena participar do Projeto Leia Mulheres, pois assim foi possível descobrir grandes escritoras. O projeto continua em caráter permanente no blog e sugestões de autoras e livros serão muito bem-vindas, é só deixar um comentário ;) O Projeto José Lins do Rego acabou não caminhando como eu previa, porque tive que ler outras coisas mais urgentes, mas pretendo continuar com a leitura das obras de José Lins, só que agora sem prazo determinado para acabar.
Selecionei alguns livros que me marcaram em 2014, mas o ano ainda não acabou e ainda tem livro bom para ler por aqui, então pode ser que mais algum apareça na minha lista final.

Todos os dias – Jorge Reis Sá

Autor português que eu li pela primeira vez esse ano e amei. Tem resenha sobre esse livro lindo aqui.

Mr. Gwyn – Alessandro Baricco

Baricco dispensa apresentações: é um dos meus escritores preferidos. Finalmente saiu a tradução tão esperada de Mr. Gwyn, que eu devorei de uma sentada só. Quem ainda não conhece a escrita incrível desse italiano precisa conhecer. Tem resenha aqui.

Para onde vão os guarda-chuvas – Afonso Cruz

2014 foi finalmente o ano em que li Afonso Cruz e só tenho uma coisa a dizer: foi amor à primeira página (ou melhor, desde os títulos lindos!). Para onde vão os guarda-chuvas foi um dos melhores livros do ano (e um dos melhores presentes que eu ganhei esse ano também), com uma edição que é uma coisa linda de se ver. E também não posso deixar de mencionar o excelente Jesus Cristo bebia cerveja que ganhou uma edição brasileira em 2014. [Resenha de Para onde vão os guarda-chuvas e Jesus Cristo bebia cerveja]

O lugar sem limites – José Donoso

Gostei muito desse livro pequenino, mas que dá muito o que pensar. Vale a pena ler esse escritor chileno, um dos grandes nomes da literatura latino-americana. [Resenha de O lugar sem limites]

Um teto todo seu – Virginia Woolf

Não é um romance, mas esse ensaio da Virginia Woolf é uma leitura fundamental. Merecia mesmo uma edição linda como essa publicada pela Tordesilhas em 2014. [Resenha de Um teto todo seu]

O corpo em que nasci - Guadalupe Nettel

Um livro realmente diferente, uma leitura que me marcou em 2014 e uma escritora de quem pretendo ler muitas obras (espero que mais livros da Nettel sejam traduzidos em breve).

No silêncio de Deus - Patrícia Reis

Patrícia Reis é uma escritora portuguesa que eu adoro e esse ano reli o maravilhoso Morder-te o coração e gostei muito de ler mais um livro da Patrícia Reis. [Resenha de No silêncio de Deus].

Um homem: Klaus Klump - Gonçalo M. Tavares

Gonçalo é simplesmente genial. Este é o primeiro livro da tetralogia O Reino, e os outros três livros serão lidos muito em breve. [Resenha de Um homem: Klaus Klump]

Hibisco Roxo - Chimamanda Adichie

Livro incrível dessa escritora nigeriana que já entrou para a minha lista de favoritas. Hibisco Roxo é um daqueles livros que só conseguimos largar quando chegamos ao fim. Um livro sobre o qual ficamos pensando durante muito tempo. [Resenha de HibiscoRoxo]

A filha do coveiro - Joyce Carol Oates

Não se assuste com o tamanho dos livros dessa estadunidense, ela costuma escrever calhamaços, mas é uma escrita que impressiona. Tem uma obra extensa e eu estou ansiosa para ler mais coisas dessa autora. [Resenha de Afilha do coveiro]

O Xará - Jhumpa Lahiri

2014 foi também o ano de ler a Jhumpa Lahiri, uma escritora inglesa descendente de indianos. Gostei muito de O Xará, um romance sobre identidade e a experiência de viver entre duas culturas. Não posso deixar de mencionar o livro de contos Intérprete de Males, do qual também gostei bastante. Uma escritora que definitivamente chegou para ficar. [Resenha de O Xará]

Este é o meu corpo - Filipa Melo

Filho único dessa escritora portuguesa, mas um livro muito envolvente. [Resenha de Este é o meu corpo]

Lucy - Jamaica Kincaid

Uma escritora caribenha que ainda não foi traduzida no Brasil, mas que merece muito ser lida. [Resenha de Lucy]

Persépolis - Marjane Satrapi

Finalmente eu li uma HQ. A que eu mais gostei foi Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi. Acho que para quem não tem o costume de ler quadrinhos com certeza é uma ótima opção para começar. (Mas eu ainda prefiro ler romances...). [Resenha de Persépolis]

E vocês, quais foram os melhores livros lidos em 2014? =)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O céu não sabe dançar sozinho

Para onde eu vou
Ferve a luz
Debaixo dos tectos
Há ontem e amanhã
Amores com pele de líquen
Sonhos azuis pelas esquinas
Ali não é preciso nada
Guardamos o lugar
Com palavras
(...).
Paula Tavares,
in "Como veias finas na terra" (2010)







O céu não sabe dançar sozinho é o mais recente livro de contos do escritor angolano Ondjaki, publicado no Brasil pela Editora Língua Geral (2014). Em Portugal o livro foi publicado pela Caminho com o título Sonhos azuis pelas esquinas (2014), uma referência ao poema de Paula Tavares citado acima. "Guardamos o lugar com palavras", por isso, cada conto tem como título uma cidade ou lugar que são, ao mesmo tempo, partida e chegada. É transitando pelo mundo que o escritor-poeta-viajante melhor exerce sua ocupação: guardar com palavras os detalhes de lugares e pessoas que passariam despercebidos para muitos. É através das viagens que as estórias surgem a partir da observação atenta do mundo e dos encontros inusitados com as pessoas, que no texto de Ondjaki estão envoltas em uma aura de magia e de sonho. Afinal, "há dias - e pessoas - que se revelam mais poderosos do que bons momentos de ficção", como nos lembra Ondjaki no conto de abertura do livro, intitulado Buenos Aires. É esse movimento pelo mundo, por aeroportos e locais tão diferentes, que enriquecem o olhar do poeta nesses contos singelos e delicados como é sempre a escrita poética de Ondjaki. Uma viagem interessante por lugares, reais ou imaginários, nos quais também nós, leitores, nos perdemos e nos encontramos. Um texto poético e terno que nos aproxima mais uma vez do autor de Os da minha rua, um dos meus livros mais queridos do escritor. É sempre uma delícia ler Ondjaki.

Para ler um dos contos do livro, clique aqui.

Ondjaki. O céu não sabe dançar sozinho. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2014.

Ondjaki nasceu em Luanda, em 1977, e mora no Rio de Janeiro. Prosador e poeta, também escreve para cinema e teatro. É membro da União dos Escritores Angolanos, membro honorário da Associação de Poetas Húngaros e membro fundador, mas não permanente, da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos. Está traduzido para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco, chinês, swahili e polaco. Vencedor do Prêmio Saramago 2013, do Prêmio FNLIJ 2010, do Prêmio JABUTI 2010, do Prêmio Grinzane for Africa Prize – Young Writer 2008, além de ter sido finalista dos Prêmios Portugal TELECOM 2007 e 2010. Com a Língua Geral publicou “Os da minha rua”, “E se amanhã o medo”, bem como o livro infantil “O leão e o coelho saltitão”.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Rosário Tijeras

Gosto de me aventurar em livrarias arriscando comprar um livro de um autor sobre o qual nunca ouvi falar. Deixar o livro me escolher e não o contrário. Quando me perguntam como eu faço isso, eu não sei o que responder. Intuição, talvez. Na maioria das vezes dá certo. Na maioria. Nunca tinha ouvido falar de Jorge Franco, mas a sinopse me pareceu interessante e, bom, tinha uma recomendação de Gabo na contra-capa.... Não me arrependi em nada de ter lido Rosário Tijeras, e fiquei com vontade de ler mais livros do autor.

Rosário Tijeras tem todos os elementos, não do realismo fantástico de Gabo, mas do realismo das favelas da Colômbia. O enredo conta a história de Rosário Tijeras (que em espanhol que dizer tesouras), uma mulher sedutora e perigosa, altamente passional, que teve sua infância destruída na vida cruel e brutal da periferia. Para sobreviver, Rosário aprende a se defender com a mesma violência do ambiente que a cerca.

Mas Rosário também é perigosa por enfeitiçar os homens com sua beleza, sua impulsividade, sua força. A "heroína" da história foge a todos os arquétipos: usa droga, se prostitui, mata muitas pessoas e se torna uma lenda. Mas tudo isso ganha um brilho especial ao ser contado através dos olhos apaixonados de Antonio, melhor amigo de Rosário e de Emílio (namorado de Rosário). É através dos olhos de Antonio que conseguimos ver, mesmo em meio a tanto caos e a uma narrativa tão intensa, a menina sofrida que é Rosário, fruto de um mundo que não lhe oferece muitas expectativas e repleto de violência, mas que também ama à sua maneira, e que sonha com uma vida melhor.

A história de Rosario é a história de Antonio, de seu amor por essa mulher que só o via como um amigo. É a história triste dos amores não correspondidos e dos estragos que eles deixam nos corações. Isso é muito bem retratado neste romance contemporâneo do colombiano Jorge Franco.

Gabriel Garcia Marquez disse que "Jorge Franco é um dos escritores colombianos para quem ele gostaria de passar a torcha". O que é um grande elogio. Não acho que ele seja um Gabo, talvez seja possível compará-lo com Gabo quanto à intensidade e a paixão dos personagens. Mas ele é certamente um grande escritor. Com uma narrativa muito envolvente, apesar de tratar de temas que tornariam qualquer romance muito "pesado" como assassinatos, drogas, prostituição, estupro etc, o amor de Antonio por Rosário "amortece" nossos olhares. Espere encontrar no livro muitos palavrões, usados para caracterizar o linguajar desse submundo. Mas espere encontrar também descrições românticas dessa paixão de Antônio por Rosário, paixão dessas de entregar a alma ao objeto desse amor.

FRANCO, Jorge. Rosário Tijeras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. 160 páginas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Um caderno e tanto

Um caderno e tanto (traduzido em Portugal como O grande caderno) é o primeiro romance de uma trilogia (A prova e A terceira mentira), da escritora húngara Agota Kristof.

Agota Kristof nasceu em 30 de outubro de 1935, na Hungria. Quando o exército russo invadiu a Hungria em novembro de 1956, Kristof deixou o país com seu marido, que havia sido seu professor de história, e sua filha de quatro meses. Eles viajaram para Viena, com a intenção de imigrarem para os Estados Unidos, mas o medo e a incerteza da longa viagem os convenceram a ficar na Suíça. Agota trabalhou em uma fábrica de relógios onde lentamente aprendeu a falar francês, língua que adotou para escrever suas obras.Segundo a autora, ela precisou se apropriar de uma nova linguagem para poder existir no mundo.

Em 1986 publicou Um caderno e tanto (Le Grand Cahier), seu primeiro romance, aos 51 anos. O romance foi um grande sucesso e foi traduzido para quarenta idiomas. Teve várias adaptações para o teatro na Europa e também foi adaptado para o cinema (Le Grand Cahier, The notebook, 2013), filme dirigido por János Szász. Agota viveu em Neuchâtel, na Suíça, até sua morte em 27 de julho de 2011.

Um caderno e tanto conta a história de dois irmãos, gêmeos que, em pleno final da Segunda Guerra Mundial, recebem do pai um caderno no qual devem escrever todos os acontecimentos que vivenciarem e a incumbência de fazer de tudo para sobreviverem. A mãe, sem condição de alimentar e cuidar dos filhos sozinha, pois o marido foi para o exército, leva os filhos para a casa da mãe, com quem não falava há muito tempo. Não sabemos o motivo, provavelmente a suspeita que paira sobre a avó de ter envenenado o avô. Logo percebemos que a avó é uma bruxa, sem demonstrar absolutamente nada de amor pelos netos. Pelo contrário, passa a tratá-los como escravos, quase sem comida e vivendo em condições precárias de limpeza e proteção contra o inverno rigoroso da região. No livro não encontramos nenhuma informação que contextualize o lugar e a época, mas subentende-se que seja o final da Segunda Gerra e o local seja a Hungria, com base na própria experiência da autora.

Longe da mãe e convivendo com uma avó tão má, os gêmeos tornam-se monstros e passam a fazer de tudo: chantagear, mentir, roubar, matar. Passam a realizar exercícios estranhos para aprenderem a suportar a dor, a fome, o frio, a falta de amor ou de qualquer sentimento que os humanize. Eles passam a ser o espelho de tudo o que a guerra faz com os seres humanos, ou de tudo o que estava acontecendo ao seu redor: uma demonstração de que quando o que nos resta é o instinto de sobrevivência, já perdemos toda e qualquer moral.

Os gêmeos passam então a demonstrar uma grande frieza em relação a tudo o que acontece. São capazes de ajudar alguém que precisa, mas não por terem qualquer sentimento pelo outro, afinal não querem nenhuma gratidão, mas oferecem ajuda a pessoas que precisam como a vizinha, uma menina com lábio leporino que mora com a avó, uma velha considerada louca por todos. As duas vivem de esmolas e a menina é molestada sexualmente em vários momentos, inclusive pelo padre da região, que lhe oferece dinheiro para que fique em silêncio. Os gêmeos então chantageiam o padre para conseguir mais dinheiro para a menina durante o inverno, ajudando-a a sobreviver. Há uma lógica estranha no que fazem, como a jovem moça que trabalha na igreja e se oferece para lavar as roupas dos dois, pois andavam muito sujos e sem banho na casa da avó. Por trás desse ato de bondade, há também o assédio que sofriam dessa mesma mulher durante os banhos semanais. 

Em outro momento, os soldados na rua arrastam para um trem um grupo de pessoas muito debilitadas, que compreendemos ser judeus. A jovem mulher da igreja humilha um dos prisioneiros oferecendo-lhe um pedaço de pão e depois negando a oferta, divertindo-se com a situação degradante em que estavam. Não sabemos se por esse motivo, ou se por conta dos abusos que sofriam, os gêmeos colocam uma munição que encontraram junto a um cadáver na floresta entre a lenha que levavam para a mulher que lavava suas roupas. Depois de uma grande explosão, ela fica desfigurada e, pouco tempo depois, morre.

Os dois meninos passam a ser governados por uma moral própria, se é que podemos dizer que isso seja moral, e fazem "justiça" com as próprias mãos, como no caso da moça da igreja e do padre, e de forma muito estranha se recusam a ir embora com a mãe quando ela retorna para buscá-los. Os dois agora querem continuar ali, com a avó. Já não são os mesmos meninos que chegaram, já se desumanizaram. Quando a mãe morre ao pisar em uma mina, não demonstram qualquer emoção. Para eles, o sentimento de amor que sentiam pela mãe é algo que os enfraquece para a dura tarefa de sobreviver.

Eu diria que o livro é um "caderno do mal", onde tudo de pior e mais grotesco e brutal parece estar presente. Foi impossível não pensar nos relatos dos sobreviventes dos campos de concentração e o que narraram sobre o absurdo da experiência do holocausto. A violência, em todos os sentidos do termo, está presente no texto, na escrita simples de Kristof, que ainda estava aprendendo o francês quando escreveu o romance e se assemelha à escrita das crianças, mas o olhar frio que descreve coisas tão absurdas de forma natural e banal nos estraçalha. De forma semelhante aos relatos dos sobreviventes, esse romance nos faz pensar, citando Primo Levi: é isto um homem?

Slavoj Žižek, quando perguntado sobre um livro que mudou a sua vida, respondeu que foi "Um caderno e tanto". Não foi um livro que mudou a minha vida, nem acho que seja um livro que deva inspirar condutas. Mas certamente foi uma leitura angustiante, inquietante, que provocou muito desconforto. Ainda estou pensando sobre o livro e o que sinto em relação a ele; sobre a brutalidade estranha da escrita simples de Kristof, que nos fala de uma crueldade que nos assombra e choca e, ao mesmo tempo, nos faz seguir lendo até o final. Talvez para sentirmos algum conforto por estarmos longe de tudo isso, em segurança. Talvez para evitar que tudo isso ocorra outra vez. Não é um livro que recomendo a qualquer leitor,  pelos temas que aborda, com certeza é um livro para corações e estômagos fortes. Mas foi interessante ler uma escritora húngara que é considerada uma das grandes representantes da literatura francófona.

Para ler uma entrevista em inglês com Agota Kristof, clique aqui.
Para ver o trailer do filme Um caderno e tanto, dirigido por János Szász, clique aqui.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O apocalipse dos trabalhadores

Depois de muitas leituras desse livro, eis finalmente uma resenha. Ou uma tentativa de registrar por escrito um pouco dos pensamentos que tive durante a leitura desse livro. Valter Hugo Mãe é um dos meus escritores preferidos, disso acho que todo mundo já sabe, e a dificuldade que eu sinto de falar sobre um livro é diretamente proporcional ao amor que tenho por ele. Por isso só depois de ter lido esse livro três vezes é que essa resenha aparece finalmente por aqui.

O enredo narra a história de duas empregadas domésticas em Portugal, Maria da Graça e Quitéria. Duas mulheres trabalhadoras unidas pela cumplicidade da amizade e de sua ocupação. Maria da Graça, casada com Augusto, um pescador, é quem sustenta a casa com seu trabalho como “mulher-a-dias”, como eles falam em Portugal. Augusto passa a maior parte do ano no mar, e mesmo quando retorna não contribui muito com as despesas da casa. Maria da Graça trabalha na casa do senhor Ferreira, um homem rico e aposentado, que abusa sexualmente de Maria da Graça em sua condição de empregada doméstica, se apropriando do seu corpo como parte do serviço pelo qual paga. O sofrimento de Maria da Graça pode ser percebido pelos pesadelos que ela descreve ao longo da narrativa, da tristeza crescente que passa a demonstrar, mesmo depois da morte do senhor Ferreira e consequente fim dos abusos. Uma amostra de que o sofrimento causado pela violência desses assédios pode durar muito mais tempo do que se imagina.

O peso das expectativas geralmente atribuídas às mulheres, como esse ideal de amor romântico que é reproduzido desde a infância com os contos de fadas em que todos são “felizes para sempre”, faz com que Maria da Graça comece a achar que está apaixonada pelo patrão, e é esse o ponto que me preocupa no livro, essa imagem de uma mulher que é abusada sexualmente em seu ambiente de trabalho e que assume um discurso totalmente "masculino" que interpreta uma violência como amor. Felizmente na história, a amiga, Quitéria, aparece como uma espécie de alter ego e diz a Maria da Graça o que nós temos vontade de dizer: Maria da Graça, "és muito nova para te deixares convencer que o amor é sermos violadas” (p.20). 

No romance, temos também a história de Andriy, um jovem que deixa seus pais na Ucrânia em crise, e migra para Portugal em busca de trabalho, como muitos fizeram na época da grande fome ucraniana. Andriy passa a se relacionar com Quitéria, ao mesmo tempo em que sente grande solidão por estar longe da família, com a qual se preocupa, e um tanto isolado, pois não fala português e em Portugal, concentrando-se unicamente no trabalho, passa a constatar quão violenta é a condição desumanizadora do trabalho, que desconsidera os sentimentos dos homens e passa a tratá-los como máquinas.

O apocalipse dos trabalhadores é um romance que fala sobre a condição dos trabalhadores e trabalhadoras no mundo contemporâneo; é um romance que fala sobre a bonita relação de amizade que surge nas circunstâncias mais inesperadas e também da violência a que as mulheres estão constantemente submetidas, seja no ambiente doméstico, seja em seu local de trabalho. Acho que ele fala também sobre o problema dessa concepção idealizada do amor, o que somos levados a acreditar que é amor, e que na verdade é o que pode nos destruir, como acontece com a Maria da Graça. Levada a acreditar que a felicidade é “morrer de amor”, passa a considerar uma violência como amor, e põe fim à sua vida para alcançar esse ideal. Mas isso não é amor.

MÃE, Valter Hugo. O apocalipse dos trabalhadores. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Lucy, de Jamaica Kincaid




Elaine Potter Richardson nasceu em 1949 em  St. John, Antígua e Barbuda. Filha única, ela mantinha uma forte ligação com a sua mãe até completar nove anos, quando o primeiro dos seus três irmãos nasceu e toda a atenção da mãe e da família se voltaram para os filhos varões. O senso de isolamento, a pobreza, o colonialismo e esse sentimento ambíguo em relação à mãe, que passou a preterir a filha por ser mulher, marcam a escrita forte de Elaine Potter Richardson (Jamaica Kincaid). Sua escrita denuncia a opressão do colonialismo e da sociedade patriarcal e possui uma raiva latente, inspirada nas tensões de sua adolescência. Aos 17 anos, a autora mudou para os Estados Unidos para fugir da pobreza e do destino de submissão e opressão destinado às mulheres em sua terra natal e começou a trabalhar como au pair. Trabalho que realizou por cerca de três anos, enquanto estudava em uma escola comunitária. Depois de estudar para ser enfermeira por um tempo, ela abandona os estudos e começa a trabalhar escrevendo entrevistas para uma revista voltada para o público adolescente. É então que muda seu nome para Jamaica Kincaid, com o objetivo de conseguir escrever com mais liberdade, como uma forma de fazer as coisas sem ser a mesma pessoa que não podia fazê-las - a mesma pessoa que carregava todo esse peso". Destituída desse "peso" que seu nome carregava, ela começa a escrever.

"a way for [her] to do things without being the same person who couldn't do them -- the same person who had all these weights". (Kincaid)

"If I hadn't become a writer I don't know what would have happened to me; that was a kind of self rescuing." Jamaica Kincaid
Lucy é o terceiro romance dessa escritora caribenha e não podemos deixar de falar de sua própria vida antes de entrar propriamente no enredo do romance, uma vez que há fortes traços autobiográficos em sua escrita. Uma escrita que pode ser imaginada e sentida, em toda sua simplicidade e lirismo, como uma escrita do entre-lugar, pois a personagem Lucy, protagonista do romance, deixa sua terra natal, uma ilha colonizada pelos ingleses, para fugir do passado, de suas raízes tão presas a uma sociedade patriarcal e colonial que oprime as mulheres e não lhes oferece melhor destino que viver trabalhando para a família e para ter filhos. Porém, ao mesmo tempo em que quer fugir de suas raízes, Lucy também não se reconhece em seu novo lugar, um lugar tão diferente de tudo o que sempre conheceu. As diferenças, desde o clima, aos objetos, à forma de se relacionar em família, e à forma de perceber o mundo e se expressar, estão constantemente causando estranhamento em Lucy, que contesta e questiona tudo o que lhe incomoda.  Lucy se permite sentir o que a situação lhe causa. A família aparentemente perfeita onde trabalha como au pair cuidando das crianças logo começa a se destroçar, assim como a aparente adaptação de Lucy ao novo país, onde é sempre vista como "a pobre visitante", "aquela que veio para servir", e sua indiferença em relação à sua família. É interessante perceber a imagem já estabelecida que pessoas como Lucy carregam ao chegar em países colonizadores. Por narrar a trajetória dessa personagem desde a adolescência até a idade adulta, retratando seu amadurecimento e a descoberta da sexualidade, Lucy é considerado um romance de formação. 

A escrita de Jamaica Kincaid é muito envolvente e aborda emoções e questões complexas, apesar do seu estilo ser considerado simples. É um livro importante na literatura pós-colonial e nos faz questionar visões pré-estabelecidas. É um livro que cutuca o leitor com sua prosa lúcida e provocativa, com questionamentos muito interessantes sobre gênero, e principalmente, sobre essa visão eurocêntrica que ainda prevalece no mundo contemporâneo. É compartilhando as emoções, por vezes conflitantes, da personagem que percebemos a importância de ter acesso a esse outro olhar, e a essas novas perspectivas na literatura.

Para ilustrar, transcrevo um trecho do romance, quando a patroa de Lucy, Mariah, contempla encantada um campo de flores (Daffodils = narcisos amarelos) que não são encontradas na terra natal de Lucy e que demonstra essa diferença de perspectiva: Mariah compreende a emoção de Lucy diante das flores como emoção e contentamento diante de tanta beleza. Mas o que Lucy está sentindo, e o que Kincaid apresenta ao leitor, é o desconforto de Lucy, sua raiva diante de flores que ela nunca havia visto na vida, mas sobre a qual teve que aprender na escola, decorando poemas imensos, porque faziam parte da vida do colonizador, mas não da sua. Essa "admiração" imposta de uma cultura sobre a outra, por meio da força e de relações de poder. Mariah tenta abraçar Lucy, que se afasta recusando o abraço, e com isso recupera a sua voz. Ela diz a Mariah o que sente ao ver os daffodils (narcisos amarelos). E lamenta que a mesma coisa provoque lágrimas por motivos diferentes nelas duas:

"Mariah, mistaking what was happening to me for joy at seeing daffodils for the first time, reached out to hug me, but I moved away, and in doing that I seemed to get my voice back. I said, "Mariah, do you realize that at ten years of age I had to learn by heart a long poem about some flowers I would not see in real life until I was nineteen?"

As soon as I said this, I felt sorry that I had cast her beloved daffodils in a scene she had never considered, a scene of conquered and conquests; a scene of brutes masquerading as angels and angels portrayed as brutes. This woman who hardly knew me loved me, and she wanted me to love this thing - a grove brimming over with daffodils in bloom - that she loved also. Her eyes sank back in her head as if they were protecting themselves, as if they were taking a rest after some unexpected work. It wasn't her fault. It wasn't my fault. But nothing could change the fact that where she saw beautiful flowers I saw sorrow and bitterness. The same thing could cause us to shed tears, but those tears would not taste the same. We walked home in silence. I was glad to have at last seen what a wretched daffodil looked like." (KINCAID, 1990, p.23)
Jamaica Kincaid atualmente vive nos Estados Unidos, entre Vermont e Califórnia, e tem dois filhos. É professora de escrita criativa na Universidade da Califórnia. Já publicou diversos romances, entre eles The Autobiography of My Mother (1996), My Brother (1997), A Small Place (1988), Annie John (1983), My Garden (Book) (1999), Talk Stories (2001), Seed Gathering Atop the World (2002), See Now Then (2013). Infelizmente, nenhum deles foi traduzido para o português AINDA. Vamos torcer para que isso ocorra em breve.

KINCAID, Jamaica. Lucy. New York: Farrar, Straus, and Giroux, 1990.