sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O apocalipse dos trabalhadores

Depois de muitas leituras desse livro, eis finalmente uma resenha. Ou uma tentativa de registrar por escrito um pouco dos pensamentos que tive durante a leitura desse livro. Valter Hugo Mãe é um dos meus escritores preferidos, disso acho que todo mundo já sabe, e a dificuldade que eu sinto de falar sobre um livro é diretamente proporcional ao amor que tenho por ele. Por isso só depois de ter lido esse livro três vezes é que essa resenha aparece finalmente por aqui.

O enredo narra a história de duas empregadas domésticas em Portugal, Maria da Graça e Quitéria. Duas mulheres trabalhadoras unidas pela cumplicidade da amizade e de sua ocupação. Maria da Graça, casada com Augusto, um pescador, é quem sustenta a casa com seu trabalho como “mulher-a-dias”, como eles falam em Portugal. Augusto passa a maior parte do ano no mar, e mesmo quando retorna não contribui muito com as despesas da casa. Maria da Graça trabalha na casa do senhor Ferreira, um homem rico e aposentado, que abusa sexualmente de Maria da Graça em sua condição de empregada doméstica, se apropriando do seu corpo como parte do serviço pelo qual paga. O sofrimento de Maria da Graça pode ser percebido pelos pesadelos que ela descreve ao longo da narrativa, da tristeza crescente que passa a demonstrar, mesmo depois da morte do senhor Ferreira e consequente fim dos abusos. Uma amostra de que o sofrimento causado pela violência desses assédios pode durar muito mais tempo do que se imagina.

O peso das expectativas geralmente atribuídas às mulheres, como esse ideal de amor romântico que é reproduzido desde a infância com os contos de fadas em que todos são “felizes para sempre”, faz com que Maria da Graça comece a achar que está apaixonada pelo patrão, e é esse o ponto que me preocupa no livro, essa imagem de uma mulher que é abusada sexualmente em seu ambiente de trabalho e que assume um discurso totalmente "masculino" que interpreta uma violência como amor. Felizmente na história, a amiga, Quitéria, aparece como uma espécie de alter ego e diz a Maria da Graça o que nós temos vontade de dizer: Maria da Graça, "és muito nova para te deixares convencer que o amor é sermos violadas” (p.20). 

No romance, temos também a história de Andriy, um jovem que deixa seus pais na Ucrânia em crise, e migra para Portugal em busca de trabalho, como muitos fizeram na época da grande fome ucraniana. Andriy passa a se relacionar com Quitéria, ao mesmo tempo em que sente grande solidão por estar longe da família, com a qual se preocupa, e um tanto isolado, pois não fala português e em Portugal, concentrando-se unicamente no trabalho, passa a constatar quão violenta é a condição desumanizadora do trabalho, que desconsidera os sentimentos dos homens e passa a tratá-los como máquinas.

O apocalipse dos trabalhadores é um romance que fala sobre a condição dos trabalhadores e trabalhadoras no mundo contemporâneo; é um romance que fala sobre a bonita relação de amizade que surge nas circunstâncias mais inesperadas e também da violência a que as mulheres estão constantemente submetidas, seja no ambiente doméstico, seja em seu local de trabalho. Acho que ele fala também sobre o problema dessa concepção idealizada do amor, o que somos levados a acreditar que é amor, e que na verdade é o que pode nos destruir, como acontece com a Maria da Graça. Levada a acreditar que a felicidade é “morrer de amor”, passa a considerar uma violência como amor, e põe fim à sua vida para alcançar esse ideal. Mas isso não é amor.

MÃE, Valter Hugo. O apocalipse dos trabalhadores. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

Um comentário:

Mikl Andrade disse...

Pipa, eu amei o livro só de ler sua resenha! Esse vai para minha lista.

Obrigada pela resenha, por acrescentar uma futura boa leitura ;)

Beijos,
M
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